O silêncio da bota: Itália consolida maior hiato da sua história e assiste ao Mundial de 2026 pelo sofá

​A derrota nos pênaltis diante da Bósnia e Herzegovina sela o terceiro fracasso consecutivo da Azzurra em Eliminatórias e coloca o tetracampeonato em um passado cada vez mais distante.

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​O futebol italiano mergulhou, nesta terça-feira, em uma escuridão técnica que nem os mais pessimistas projetavam há uma década. Ao cair diante da Bósnia e Herzegovina na marca do cal, em plena repescagem europeia, a Itália transformou o que era uma crise em um estado de decadência permanente. O revés por 4 a 1 nas penalidades, após o empate em 1 a 1 no tempo normal, carimba o passaporte de uma geração que conheceu o topo da Europa recentemente, mas que desaprendeu o caminho para o mapa-múndi da FIFA. Pela primeira vez na história, uma seleção detentora de quatro títulos mundiais passará doze anos sem sentir o gosto de disputar a competição mais importante do planeta.

A trajetória da equipe comandada por Gennaro Gattuso nas Eliminatórias foi o retrato de uma seleção que perdeu a capacidade de se impor. O segundo lugar no Grupo I, ficando seis pontos atrás da Noruega, obrigou o país a trilhar novamente o perigoso caminho do mata-mata único. A vitória protocolar sobre a Irlanda do Norte na semifinal serviu apenas como uma cortina de fumaça para os problemas estruturais que ficaram expostos contra os bósnios. Sem o brilho individual de outrora e carente de uma identidade coletiva que suportasse a pressão do favoritismo, a Itália sucumbiu emocionalmente no momento em que a precisão técnica era o único requisito para evitar o vexame.

Desde a participação no Brasil em 2014, quando foi eliminada ainda na fase de grupos em uma chave que tinha Uruguai e Inglaterra, a seleção italiana virou uma expectadora de luxo. Os fracassos acumulados nas idas para a Rússia e para o Catar agora ganham a companhia da ausência na Copa de 2026. O peso da camisa, que costumava intimidar adversários em décadas passadas, parece ter se tornado um fardo carregado por atletas que não conseguem replicar o sucesso dos clubes nas cores da federação. A lacuna geracional é profunda e o modelo de formação italiano volta a ser questionado diante de um cenário onde nações de menor tradição demonstram maior organização e sangue frio.

Estatisticamente, o abismo é inédito. Embora divida com a Alemanha o posto de segunda maior vencedora do torneio, a Itália agora ostenta um recorde que nenhuma potência gostaria de ter: o de maior ausência seguida para um campeão. Enquanto o Brasil se mantém isolado no topo com suas conquistas e presenças constantes, a Azzurra se vê presa a memórias de 2006, ano de sua última glória. O futebol italiano, outrora referência de solidez defensiva e inteligência tática, termina o ciclo de 2026 precisando mais do que uma troca de comando; necessita de uma reconstrução de fundamentos que impeça que o brilho das suas quatro estrelas se apague definitivamente no horizonte do futebol moderno.

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