O retão da BR-020 (BA): onde o horizonte é uma promessa que nunca se cumpre

​Entre o tédio hipnótico e o PIB sobre rodas, o oeste baiano ostenta uma das maiores retas do planeta, agora com asfalto renovado para quem tem pressa, ou sono.l

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Atravessar o oeste da Bahia pela BR-020 exige mais do que um tanque cheio; demanda uma resistência quase budista à monotonia. Entre o distrito de Rosário, em Correntina, e Roda Velha, em São Desidério, a estrada decide que curvas são um conceito supérfluo. São quase 145 quilômetros de um traçado tão retilíneo que o Google Maps parece ter sido desenhado com uma régua escolar por um engenheiro preguiçoso. É o paraíso dos geômetras e o purgatório dos cafeineiros, onde o cenário de Cerrado se repete em um “looping” visual que desafia a sanidade de qualquer caminhoneiro.

Recentemente, o Ministério dos Transportes e o DNIT despejaram R$ 35,3 milhões para garantir que esse tédio seja, pelo menos, suave. O investimento revitalizou 135,9 quilômetros de pista, trocando o asfalto antigo por Concreto Asfáltico Usinado a Quente (CAUQ). Na prática, isso significa que a “estrada sem fim” agora balança menos, permitindo que as carretas carregadas de soja, milho e algodão do Matopiba, a fronteira agrícola que une Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, fluam sem que o motorista precise desviar de crateras que, antigamente, eram as únicas “curvas” do trajeto.

 

​Embora o marketing oficial trate o trecho como um triunfo da engenharia logística, para quem segura o volante, a realidade é um fenômeno psicológico. Estradas excessivamente retas são conhecidas mundialmente por induzir a “hipnose rodoviária”, um estado de transe onde o cérebro, entediado pela falta de estímulos, decide tirar uma soneca com os olhos abertos. Na Austrália, a famosa “90 Mile Straight” na Eyre Highway, com seus 146,6 km de tédio absoluto, compete em extensão com a nossa baiana. Mas o recorde mundial de monotonia ainda pertence à Highway 10, na Arábia Saudita, que corta o deserto por surreais 240 quilômetros sem sequer um desvio para a esquerda.

O “xará” asfáltico da Bahia, contudo, tem uma personalidade mais rústica. Enquanto em Utah a Interstate 80 corta as planícies de sal com um visual futurista, na BR-020 o que se vê é a força bruta do agronegócio. A roçada e a limpeza da faixa de domínio, incluídas no pacote milionário de 2024, não servem apenas para a estética; são fundamentais para que o motorista consiga enxergar um animal ou uma sinalização horizontal antes que a monotonia o transforme em passageiro do próprio destino.

A ironia reside no fato de que o asfalto novo, embora reduza custos de manutenção e combustível para as transportadoras, é um convite ao abuso do acelerador. Em um corredor onde o horizonte nunca chega, a sensação de velocidade é dissipada pela imensidão, transformando a rodovia em um teste de disciplina. É o palco onde a eficiência econômica do escoamento de safras encontra a fragilidade humana. Afinal, em uma reta de 145 quilômetros, o maior perigo não é o que vem no sentido contrário, mas a própria vontade de que o caminho, finalmente, mude de direção.

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