O silêncio das noites mal dormidas e o tremor involuntário das pálpebras, antes camuflados por doses excessivas de café e resiliência tóxica, agora encontram tradução em números alarmantes nos registros do Ministério da Previdência Social. O Brasil assiste a uma metamorfose drástica na natureza das ausências laborais: o esgotamento profissional, popularmente conhecido como Síndrome de Burnout, deixou a periferia dos diagnósticos para se tornar um protagonista indigesto da economia nacional. Entre 2021 e 2024, as concessões de auxílio-doença motivadas por essa patologia multiplicaram-se por seis, revelando que a conta do produtivismo a qualquer custo está sendo repassada para o sistema de seguridade social.
A trajetória da empresária Carla Ramalho personifica a estatística. O que começou como lapsos de memória e irritabilidade em uma multinacional culminou em crises de pânico e um pedido de demissão inevitável. O relato dela ecoa uma realidade estrutural: a dificuldade de identificar o limite entre o cansaço comum e o adoecimento crônico. Essa zona cinzenta mascara a realidade, pois muitos trabalhadores, temendo o estigma da “fraqueza” ou a instabilidade financeira, prolongam o sofrimento até o colapso total. O Ministério da Previdência aponta que apenas no primeiro semestre de 2025, os transtornos mentais já representavam um em cada sete afastamentos, aproximando-se perigosamente do volume histórico de licenças por problemas ortopédicos e musculares.
Financeiramente, o cenário é de pressão máxima sobre o erário. Os gastos com auxílio-doença saltaram de R$ 18,9 bilhões em 2022 para R$ 31,8 bilhões em 2024, um crescimento que reflete não apenas o aumento de diagnósticos, mas a gravidade dos casos. Enquanto as lesões físicas costumam ter protocolos de recuperação previsíveis, o abismo psíquico exige tratamentos longos e retornos incertos ao mercado de trabalho. O governo federal, em alerta desde o período pós-pandemia, monitora o impacto dessa transição epidemiológica, onde a mente do trabalhador brasileiro parece ter atingido o seu ponto de ruptura.
O fenômeno também expõe um hiato na proteção social. Os dados oficiais ignoram a massa de trabalhadores informais que, sem o amparo do INSS, enfrentam o esgotamento no absoluto desamparo. O debate agora migra da esfera médica para a gestão estratégica: o Burnout não é uma falha individual de resistência, mas um sintoma de modelos de gestão obsoletos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece a síndrome como um problema ocupacional legítimo, retirando a carga de “desculpa” que o senso comum costumava atribuir. Se o sistema previdenciário sente o peso financeiro, o país perde capital humano em uma escala sem precedentes, sinalizando que a saúde mental se tornou a moeda mais cara da nova economia.





