O paradoxo da violência no Sertão: Petrolina (PE) registra janeiro sangrento enquanto Brasil ensaia calmaria

​Enquanto índices nacionais atingem mínimas históricas, a escalada de crimes letais no interior pernambucano expõe a fragilidade das políticas de segurança diante da nova dinâmica da criminalidade regional.

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A aparente calmaria estatística que os órgãos de segurança pública nacional tentam consolidar esbarra na realidade crua das calçadas do sertão pernambucano. Em apenas 29 dias deste início de 2026, Petrolina contabilizou 25 homicídios, uma cifra que não apenas assusta pela magnitude numérica, mas pela audácia das execuções. O cenário recente, marcado por crimes de natureza múltipla e episódios de violência explícita no bairro Dom Avelar, coloca em xeque a narrativa de controle estatal e expõe a fragilidade do tecido social em polos regionais de crescimento.

​Enquanto a Polícia Civil se apressa em comunicar a elucidação de inquéritos para conter a percepção de impunidade, o rastro de sangue se estende para além das divisas da “Capital do Sertão”. Municípios vizinhos como Afrânio e Dormentes também registraram episódios letais, sugerindo uma capilarização da criminalidade que ignora fronteiras municipais e desafia as estratégias de policiamento ostensivo. O que se observa é um descompasso entre a logística do crime e a capacidade de resposta das instituições, que lutam para antecipar movimentos em um tabuleiro cada vez mais fragmentado.

​A ironia reside no contraste com o panorama federal. Dados consolidados de segurança pública indicam que o Brasil atravessa seu quinto ano consecutivo de queda no número absoluto de Mortes Violentas Intencionais (MVIs), com os biênios de 2024 e 2025 atingindo as menores marcas históricas em mais de uma década. Entretanto, essa “paz estatística” é seletiva e cruel. O declínio dos índices gerais mascara o recrudescimento de modalidades específicas e bárbaras, como o feminicídio, que atingiu picos recordes recentemente.

​Essa dualidade cria uma dissonância cognitiva na população: o gráfico desce, mas o medo sobe. O intelectual que analisa a segurança pública hoje percebe que não se trata apenas de reduzir números, mas de entender a mutação da violência. Petrolina, neste momento, torna-se o microcosmo de um país que celebra recordes positivos em planilhas de Brasília, enquanto ainda enterra seus mortos em uma frequência que desmente qualquer sensação de segurança definitiva. A redução da letalidade geral é uma vitória técnica, mas a manutenção do temor social revela que a raiz do conflito permanece intacta, pulsando no cotidiano das periferias e das cidades do interior.

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