O ocaso das Muriçocas: o zumbido que perdeu o tom na Epitácio Pessoa

​Entre o gigantismo do passado e o deserto do presente, o maior bloco de pré-carnaval do mundo celebra 40 anos com avenidas largas demais para foliões de menos

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Diz o folclore paraibano que, quando o bloco Muriçocas do Miramar foi criado, em 1986, a intenção era apenas não deixar o bairro morrer no silêncio enquanto o Recife fervia logo ali ao lado. Quatro décadas depois, o bloco parece ter redescoberto sua vocação para o silêncio, ainda que involuntariamente. Na última quarta-feira (11), a celebração dos 40 anos do estandarte mais icônico de João Pessoa entregou uma cena inusitada: o trio de abertura avançava pela Avenida Epitácio Pessoa com a pressa de quem não queria chegar atrasado a lugar nenhum, enquanto, atrás dele, o vazio era a única multidão presente.

 

​O que se viu foi um fenômeno de física carnavalesca: o tempo de espera entre um trio e outro tornou-se um buraco negro de animação. Se em anos áureos a “Via Folia” era um mar de gente onde não se via o asfalto, desta vez o que se via era o planejamento urbano em toda a sua amplitude técnica. A mística do “maior bloco de arrasto do mundo” foi substituída por um desfile que parecia mais uma reunião de condomínio em movimento, onde o eco das músicas ricocheteava nos prédios sem encontrar corpos para absorver o som.

 

Para quem apostou o lucro do mês no apetite do folião, o cenário beirou a tragédia grega em solo tabajara. Moisés Dias, que atravessou os quilômetros que separam Aroeiras da capital com a esperança de quem encontra o Eldorado, deparou-se com uma avenida de expectativas frustradas. “Uma negação, prejuízo e medo de perder tudo”, disse ele. Suas mercadorias, preparadas para um exército de sedentos, permaneceram intocadas, assistindo passivamente ao desfile da escassez. No mesmo compasso de desânimo, Dona Iere Muniz olhava para sua barraca como quem observa um porto sem navios. “Nunca pensei que fosse ficar assim, sem vender, as panelas cheias”. A falta de público não foi apenas uma percepção estética; foi um golpe contábil.

 

A cena mais emblemática do declínio, porém, não estava nos trios, mas no contrafluxo da avenida. Ambulantes faziam o caminho de volta com carrinhos pesados. Pipocas que deveriam estar estalando na boca do povo murchavam na noite, e batatas fritas, antes o combustível oficial da folia, retornavam para casa como um estoque de prejuízo acumulado. Onde antes se contava o lucro por hora, hoje se contabiliza o diesel gasto para transportar o que não foi vendido.

 

Celebrar 40 anos com uma avenida deserta é um exercício de ironia que nem o mais sarcástico dos fundadores poderia prever. O bloco que nasceu para “picar” a letargia da cidade parece ter sido vítima do seu próprio gigantismo, ou talvez de uma fadiga de material que nem o carisma de Fuba consegue mais mascarar. “O problema é que o público das Muriçocas também envelheceu e muitos jovens nem conhecem a sua história”, disse Marta, foliã assídua do bloco de outrora.

 

Se as Muriçocas ainda têm veneno para as próximas décadas, precisarão encontrar uma forma de atrair algo além de vento e asfalto para a Epitácio. Por enquanto, o aniversário de 40 anos fica marcado não pelo brilho do estandarte, mas pelo peso dos carrinhos cheios que voltaram para os bairros, carregando o silêncio de quem esperava o caos e encontrou o vazio.

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