O mito da barba e o fetiche do diploma: a equação de Enéas para o Brasil

​Entre o esfregão e o telescópio, o folclórico cardiologista pregava que a ignorância é a única barreira real, ignorando que o estômago vazio raramente decifra o cálculo diferencial.

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Enéas Carneiro, o homem que transformou o tempo de antena televisivo em uma metralhadora verbal de 15 segundos, parece estar vivendo um revival digital. O cardiologista, que ostentava títulos como se fossem medalhas de guerra, defendia uma tese que faria qualquer meritocrata de rede social suspirar: a de que a distância entre o sujeito que encera o piso do hospital e o astrofísico que calcula a expansão do universo é meramente uma questão de “input” de dados. Para ele, a desigualdade humana não passava de um erro de carregamento no navegador do conhecimento.

É uma visão quase romântica, vinda de um homem que parecia permanentemente furioso. Ao afirmar que ambos os extremos são peças igualmente vitais na engrenagem social, Enéas vendia um tipo de consolo intelectual que beira o sarcasmo involuntário. É o equivalente a dizer que o motor e o parafuso da roda são iguais — tecnicamente verdade até você tentar dirigir sem o motor ou perder o parafuso a 100 km/h. O “Doutor 56” acreditava piamente que o fortalecimento da educação técnica e científica seria o único solvente capaz de derreter o abismo social brasileiro, tratando o cérebro humano como um HD vazio à espera de um software de alta performance.

O problema dessa lógica disruptiva, e um tanto quanto utópica, é que ela ignora a logística do aprendizado. Na prática, o país que Enéas desejava consertar com física e matemática muitas vezes tropeça na etapa anterior: garantir que o futuro astrofísico não precise abandonar o livro para segurar o esfregão antes mesmo de aprender a regra de três. A fé inabalável do falecido político no poder transformador do estudo era, ao mesmo tempo, sua maior virtude e sua maior miopia; afinal, em um Brasil de desigualdades estruturais, o acesso ao “conhecimento” raramente é uma fila com prioridade para todos.

Ainda assim, não deixa de ser refrescante, num mar de retórica vazia, encontrar uma figura que colocava a ciência no centro do palanque, mesmo que o fizesse aos gritos. Enéas partiu deixando a barba, o óculos e uma pergunta satírica que ainda ecoa nos corredores de Brasília: se a educação é o único diferencial, por que continuamos investindo tanto na produção de ignorantes com foro privilegiado?

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