A sacristia deixa de ser um refúgio para se tornar o palco de um embate visceral contra o apagamento. Em uma costura que une a literatura paraibana de Tarcísio Pereira à visão cênica de Flávio Melo, a peça Quizales desembarca como um soco no estômago das convenções sociais e religiosas. O texto não se contenta em narrar uma biografia ficcional; ele expõe as vísceras de um sistema que, secularmente, tenta domesticar corpos que não se encaixam na norma.

A narrativa mergulha na existência de um padre que carrega na pele e no afeto o peso de estigmas sobrepostos. Ao transitar entre a devoção espiritual e a realidade de uma sociedade estruturada no preconceito racial e na homofobia, o protagonista personifica uma resistência que vai além do discurso político. É uma luta pela manutenção da própria humanidade. A adaptação de Melo evita o maniqueísmo barato, preferindo focar na humanidade falível e pulsante de quem precisa negociar o direito de amar enquanto exerce o ofício do sagrado.
No palco, a encenação se vale da força da cultura popular e da densidade poética para construir um ambiente que é, ao mesmo tempo, onírico e brutalmente realista. O elenco diverso traz camadas de autenticidade que validam a proposta crítica do espetáculo, transformando a plateia em testemunha de uma busca incessante por dignidade. Não se trata apenas de representar a dor, mas de conferir protagonismo a vozes historicamente empurradas para as margens dos altares e das calçadas.
Quizales surge como um manifesto estético necessário para um tempo que ainda hesita em encarar suas próprias contradições. Ao confrontar o público com a violência da exclusão, a obra provoca uma reflexão que não termina quando as luzes se apagam. É um convite ao desconforto, um lembrete de que a fé, quando despida de empatia, torna-se apenas mais uma ferramenta de opressão. No fim das contas, a montagem é um exercício de espelhamento social, onde o amor e a identidade reivindicam seus lugares de direito.





