O fetiche do algoritmo: por que sua empresa gastou bilhões para resumir e-mails

​Enquanto CEOs entoam o mantra da inteligência artificial como o novo Messias da eficiência, dados mostram que a revolução tecnológica está mais para um estagiário caro que só sabe fazer resumos de reuniões que ninguém queria ter assistido.

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O protocolo de aparência corporativa dos últimos dois anos tem sido monotemática. Se você não incluiu “IA” em pelo menos três slides da sua última apresentação, provavelmente está sendo olhado com a desconfiança reservada aos usuários de máquinas de escrever. No entanto, o altar da produtividade parece estar sofrendo de um curto-circuito generalizado. Um levantamento do Escritório Nacional de Pesquisa Econômica (NBER) jogou um balde de água gelada, ou melhor, um servidor inteiro de dados crus, na cabeça dos entusiastas: em 80% das empresas, a IA é um ornamento digital que não moveu o ponteiro da produtividade nem um milímetro.

O cenário beira o satírico. Ocupamos palcos e newsletters celebrando uma disrupção que, na prática, consome 90 minutos da semana de um executivo padrão. Em uma jornada de 40 horas, dedicar menos de 5% do tempo a uma ferramenta e esperar que ela salve o PIB da companhia é o equivalente moderno a comprar uma esteira de última geração, usá-la como cabide para paletós e reclamar que o condicionamento físico não melhora.

Essa desconexão entre o marketing agressivo do Vale do Silício e o cotidiano das planilhas evoca o fantasma de Robert Solow. Na década de 1970, o Nobel de Economia notou que víamos computadores em todos os lugares, exceto nas estatísticas de produtividade. Hoje, vivemos o “Déjà Vu de Silício”. As empresas inundam seus fluxos de trabalho com chatbots para realizar tarefas que um filtro de spam ou um bom corretor ortográfico já resolviam, enquanto a verdadeira inteligência, aquela estratégica, visceral e humana, continua fugindo dos prompts de comando.

​A grande ironia reside na profecia do desemprego em massa. O medo de ser substituído por uma máquina onisciente foi suplantado pela realidade de ter que revisar os delírios alucinatórios de um modelo de linguagem que não entende a diferença entre um plano de marketing e uma receita de bolo de caneca. A IA, por ora, não veio para roubar seu emprego, mas para te dar mais trabalho na supervisão de uma automação preguiçosa.

Ainda assim, o otimismo corporativo é uma substância inebriante. Os mesmos executivos que admitem o fracasso atual projetam um salto de produtividade e cortes no quadro de funcionários para os próximos três anos. É a fé cega no progresso: se a ferramenta não funciona hoje, a culpa é da implementação; se não funcionar amanhã, a culpa será dos humanos que não souberam “conversar” com a máquina. Enquanto isso, seguimos investindo bilhões para que a inteligência artificial nos ajude a ignorar, com mais elegância e rapidez, o que realmente importa no mundo dos negócios.

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