Neste domingo, 22 de março, o Autódromo de Interlagos será palco de um evento que desafia a paciência dos ouvintes de rádio FM e a sanidade dos algoritmos de streaming. A banda Papangu faz sua estreia no Lollapalooza Brasil 2026, trazendo na bagagem o rótulo de “rock troncho”, uma definição que, para os íntimos, soa como um elogio torto para quem decidiu que o prog-rock dos anos 70 e o metal extremo deveriam dividir a mesma mesa de bar com os folguedos nordestinos.

Esqueça as caricaturas turísticas e os clichês de exportação. O som do grupo não é um cartão-postal; é uma colisão frontal entre a técnica do jazz e a crueza do doom metal. A banda utiliza as raízes da Paraíba não como adorno, mas como uma mola propulsora para texturas dissonantes e quebras de tempo que fariam um metrônomo pedir demissão. É a chamada vanguarda rústica, onde o peso da distorção encontra a sofisticação melódica em um abraço nada amigável.
A trajetória que os trouxe até aqui parece roteiro de filme cult. O álbum de estreia, Holoceno (2021), garantiu um séquito internacional quase instantâneo antes mesmo de muitos brasileiros saberem pronunciar o nome da banda. Em 2024, elevaram a aposta com Lampião Rei, uma ópera-rock experimental que narra a vida de Virgulino Ferreira da Silva sob uma ótica progressiva, fugindo de qualquer romantismo barato. O reconhecimento veio a galope: indicações na APCA e uma turnê europeia em 2025 que incluiu uma passagem barulhenta pelo festival ArcTanGent, no Reino Unido.
Para quem espera um show de entretenimento passivo, o aviso está dado. No palco, a Papangu opera em uma frequência de improviso e rigor técnico que transforma cada performance em um exercício de sobrevivência auditiva. Entre o peso esmagador e a elegância instrumental, eles se consolidam como uma das vozes mais autênticas e desafiadoras da cena atual. Resta saber se o público do festival está preparado para trocar os refrões chiclete por uma dose cavalar de densidade e estranhamento.





