A cronologia do continente foi fraturada às primeiras horas deste sábado. O que as chancelarias temiam como um impasse perene dissolveu-se sob o estrondo de motores supersônicos e o clarão de ogivas sobre o Fuerte Tiuna. A incursão militar dos Estados Unidos em território venezuelano, articulada com uma precisão cirúrgica que evoca memórias da Operação Just Cause no Panamá, não foi apenas uma demonstração de força, mas um ato de despejo geopolítico. Ao amanhecer, o cenário descrito por agências como Reuters e os principais veículos brasileiros não deixava margem para eufemismos: centros de comando foram pulverizados e a cúpula do poder em Caracas, antes encastelada em retórica e armas, viu-se subitamente desmantelada.
A narrativa oficial emitida de Washington sustenta que a neutralização de Nicolás Maduro era o imperativo ético e jurídico final contra um Estado transformado em entreposto do narcotráfico. No entanto, o que de observa no tabuleiro sul-americano é uma camada mais espessa de complexidade. O vácuo deixado pela suposta captura do líder chavista não é apenas político, mas estrutural. Enquanto o Comando Conjunto de Operações Especiais consolida perímetros no Aeroporto de Miranda, paira a dúvida sobre a capacidade de autogestão de um país cujas instituições foram, por décadas, fundidas à figura de um só homem. A queda de um regime por força externa raramente planta flores; mais frequentemente, revolve o solo para que velhos e novos ressentimentos germinem em insurgência.
Nas calçadas de Boa Vista e Manaus, e em outras cidades do Brasil, onde o espanhol já se misturou ao português no cotidiano das feiras e ruas, o sentimento dos venezuelanos exilados é um amálgama de catarse e pânico. Não há celebração unânime, mas um silêncio pesado. Para quem deixou para trás pais e irmãos, cada notícia de bombardeio em La Guaira soa como um possível epitáfio familiar. O migrante venezuelano no Brasil conhece a fome, mas teme agora o caos sem rosto de uma ocupação estrangeira. A percepção popular brasileira, por sua vez, oscila entre o pragmatismo econômico e a apreensão diplomática. Existe a clareza de que a instabilidade no vizinho do norte não se restringe a fronteiras de papel; ela encarece o combustível, tensiona as forças armadas na Amazônia e coloca o Itamaraty em uma encruzilhada histórica entre a condenação da intervenção e a aceitação de uma nova realidade regional.
Este 3 de janeiro de 2026 será wrecordado como o dia em que a diplomacia cedeu lugar à logística de guerra. A inteligência estratégica agora se volta para os desdobramentos na OEA e no Conselho de Segurança da ONU, onde a legalidade da “Lança do Sul” será dissecada. Contudo, para além dos tribunais internacionais, o fato consumado nas ruas de Caracas impõe um novo paradigma: a soberania na América Latina acaba de ser redefinida pelo alcance dos drones e pela velocidade das tropas de elite. O futuro da Venezuela, agora despojado de suas lideranças tradicionais, é uma página em branco escrita sob o cheiro de pólvora e a incerteza de uma reconstrução que sequer começou.





