O espetáculo do cárcere: delegado influenciador transforma delegacia em cenário de “choque de realidade”

​Entre celas insalubres e algoritmos, a "Operação Geração do Bem" em Goiás expõe o vácuo regulatório sobre policiais que utilizam a estrutura do Estado para alavancar audiência digital.

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A estética do submundo prisional, marcada pelo odor acre de banheiros coletivos e paredes pichadas, tornou-se o mais novo cenário de engajamento nas redes sociais do delegado Humberto Teófilo de Menezes Neto. Em Aparecida de Goiânia, a Central de Flagrantes deixou de ser apenas uma unidade de polícia judiciária para se transformar no palco da “Operação Geração do Bem”. O projeto, que consiste em levar crianças e adolescentes para visitar celas degradadas sob o pretexto de um “choque de realidade”, levanta um debate urgente sobre os limites éticos, legais e democráticos da atuação de agentes públicos no ambiente digital.

O conteúdo, que já acumula centenas de milhares de interações, segue uma gramática visual comum à “indústria de cortes”: crianças tapando o nariz diante do “boi”, o vaso sanitário de chão, enquanto recebem lições de moral sobre as facções criminosas que ocupam aquele espaço. No entanto, a narrativa omite preceitos fundamentais da Lei de Execução Penal, como o direito à higiene e à dignidade, preferindo a espetacularização do precário como ferramenta pedagógica.

A iniciativa de Teófilo transita em uma zona cinzenta da legalidade administrativa. Embora o delegado apresente a ação como um programa de prevenção às drogas, a Secretaria de Segurança Pública de Goiás não reconhece a prática como uma política institucionalizada. O descompasso fica evidente quando se observa a Portaria da Polícia Civil do estado, que veta expressamente o uso de viaturas, armas e ocorrências para fins de promoção pessoal ou eleitoral. O movimento ganha contornos mais complexos diante do calendário político: com as eleições de 2026 no horizonte, a exploração de pautas de segurança pública em plataformas de vídeo curto acende o alerta do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o abuso do poder de comunicação e a fiscalização de “policiais influencers”.

A logística do projeto também revela fragilidades na proteção de dados e na segurança dos menores. Através de um site pessoal, sem filtros rigorosos ou transparência sobre o tratamento de informações sensíveis, qualquer usuário pode inscrever crianças em grupos de WhatsApp administrados pelo delegado. O que se vê é uma estrutura paralela de mobilização social que utiliza recursos públicos, como o apoio de viaturas da Guarda Municipal para caminhadas em vias públicas, para sustentar uma marca pessoal em ascensão.

A recente proibição das visitas às celas por uma “ordem superior”, ocorrida logo após questionamentos da imprensa, sinaliza uma tentativa de contenção de danos por parte da cúpula da Polícia Civil. Contudo, o episódio de Aparecida de Goiânia é apenas a ponta do iceberg de um fenômeno maior. Especialistas apontam que a ausência de uma legislação eleitoral robusta para lidar com a “uberização” da segurança pública nas redes sociais coloca em risco o equilíbrio democrático, transformando o dever de informar em uma busca desenfreada por cliques, onde a infância é utilizada como escada para o populismo digital.

Pior é que isso tem acontecido em todo lugar do Brasil…e em várias instituições.

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