O início de um novo ciclo, como o que se desenha para 2026, ultrapassa a mera liturgia de trocar calendários. É, antes de tudo, um embate semiótico. Vivemos uma era em que a velocidade não é apenas uma característica técnica, mas uma ameaça direta à capacidade de reflexão. Nesse tabuleiro de forças, a utilidade mercadológica tenta, a todo custo, sequestrar o lugar do sentido, reduzindo o conhecimento a uma ferramenta instrumental e esvaziada de subjetividade.
A verdadeira resistência, contudo, opera nas frestas. É no espaço “entre as letras” aquele hiato invisível entre o que é dito e o que é compreendido, que o pensamento crítico sobrevive. Diferente dos algoritmos que buscam respostas binárias e certezas confortáveis, a arte e a educação humanista nascem da pergunta, do desconforto e do deslocamento. Enquanto o debate público se afoga em polarizações que simplificam o mundo, a literatura, o teatro e as artes visuais atuam para revelar as fissuras de uma realidade que muitos preferem ignorar.
Este momento histórico exige mais do que entusiasmo; exige intencionalidade. O jornalismo cultural e a escola não podem ser apenas vitrines de divulgação ou depósitos de informações datadas. Eles são lugares de inscrição do tempo, guardiões de uma memória coletiva que se recusa a ser consumida e descartada. Escrever sobre cultura hoje é um ato de responsabilidade ética, uma tentativa de silenciar o ruído para que vozes sufocadas pela lógica da produtividade possam, enfim, ser ouvidas.
A proposta para o futuro próximo é um convite à escuta profunda. Aceitar que a criação demanda pausa e que a dúvida é o combustível da inteligência é o primeiro passo para reconstruir um olhar mais humano sobre o coletivo. Se a arte serve para algo, não é para adornar a vida, mas para desnudá-la em suas sombras e possibilidades. Enquanto houver quem insista em encontrar espaço para pensar e imaginar outros modos de estar juntos, haverá sempre um começo. Afinal, a história não se escreve apenas com palavras, mas com o silêncio necessário para que elas voltem a ter peso.





