O dilema do gigante: GPA admite risco de continuidade e enfrenta o abismo da liquidez

​Com dívida em escalada e capital de giro pressionado, a quinta maior varejista do país entra em rota de colisão com o mercado ao questionar sua própria capacidade operacional.

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O varejo alimentar brasileiro assiste a um movimento de retração que desafia a lógica de resiliência do setor. O Grupo Pão de Açúcar (GPA), instituição que moldou o consumo das classes médias e altas nas últimas décadas, formalizou o que investidores já sussurravam nos corredores da Faria Lima: a sobrevivência da companhia não é mais uma garantia absoluta. Ao registrar em seu balanço do quarto trimestre uma “incerteza relevante” sobre a continuidade de suas operações, o GPA abandonou o eufemismo corporativo e abraçou o pragmatismo da crise.

A anatomia do declínio é exposta por métricas que sufocam a agilidade necessária ao comércio. O salto da dívida líquida para a casa dos R$ 2 bilhões, combinado a uma alavancagem que agora atinge 2,4 vezes o seu Ebitda, revela um descompasso entre a geração de valor e o custo do capital. No jargão financeiro, o grupo hoje deve mais do que sua capacidade operacional de lucro consegue amortizar em curto prazo, criando um cenário de paralisia estratégica onde cada centavo gerado é drenado pelo serviço da dívida.

O sintoma mais agudo dessa fragilidade reside no capital de giro. Com um déficit que ultrapassa R$ 1,2 bilhão, o GPA opera no fio da navalha, dependendo da boa vontade de credores e de uma renegociação agressiva de prazos para manter as gôndolas abastecidas e as luzes acesas. A reação do mercado foi imediata e punitiva, refletida na desvalorização das ações que sentiram o peso de uma possível crise de solvência em um dos maiores players do país.

Sob o comando de Alexandre Santoro, a gestão atual tenta converter a inércia em disciplina. O plano de voo para evitar o colapso envolve uma poda rigorosa nos custos fixos e um diálogo exaustivo com instituições bancárias para alongar passivos. Contudo, o desafio transcende a planilha. Em um mercado saturado e com margens comprimidas pela concorrência dos atacarejos, o Pão de Açúcar precisa provar que sua marca ainda possui o magnetismo necessário para gerar o caixa que o salvará da insolvência. O momento não é mais de expansão, mas de uma luta silenciosa pela manutenção da própria existência.

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