A engrenagem do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) transformou-se em um paradoxo financeiro e educacional para o governo federal. Dados recentes revelam que o Estado brasileiro irriga com cerca de R$ 3,7 bilhões cursos de Medicina que ostentam conceitos 1 e 2 no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Esse montante sustenta a matrícula de aproximadamente 14 mil alunos em instituições cujo desempenho acadêmico situa-se na base da pirâmide avaliativa, levantando um questionamento ético e prático: até que ponto o subsídio público deve ignorar a meritocracia institucional em nome do acesso
A resposta do Ministério da Educação, embora tardia, aponta para uma ofensiva regulatória que prevê a suspensão imediata de novos contratos em graduações com mau desempenho. A medida atinge diretamente o coração financeiro de grupos privados, uma vez que o setor de Medicina representa quase 17% de todos os contratos ativos do programa. Especialistas em políticas públicas advertem que o despejo de recursos em estruturas deficitárias não apenas desperdiça o erário, mas compromete a segurança do sistema de saúde a longo prazo. Formar um médico em uma “instituição em ruínas”, muitas vezes vinculada a interesses políticos locais e distantes dos grandes centros de excelência, cria um passivo social difícil de ser mitigado por cursos de reciclagem posteriores.
Por outro lado, o setor privado, representado por entidades como a Anup e a Abmes, reage com ceticismo à austeridade do MEC. O argumento das mantenedoras reside na crítica à volatilidade das avaliações pontuais, defendendo que o Enamed não deveria ser o único fiel da balança para decisões tão drásticas quanto a asfixia financeira de um curso. Para o mercado, a suspensão de contratos pune o estudante na ponta final e ignora a complexidade de indicadores que compõem o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes). Entretanto, o Ministério Público Federal já move engrenagens para apurar a qualidade dessas prestações de serviço, sugerindo que o tempo da benevolência regulatória está chegando ao fim.
O cenário atual exige uma disrupção no modelo de governança do ensino superior brasileiro. Não se trata apenas de cortar verbas, mas de recalibrar o investimento para que o Fies deixe de ser uma bóia de salvamento para faculdades ineficientes e passe a ser um indutor de qualidade. A manutenção do status quo gera um ciclo vicioso onde o dinheiro público financia a formação de profissionais que, futuramente, o próprio Estado terá dificuldade em absorver com confiança em seus quadros de saúde pública. A crise do financiamento da Medicina é, em última análise, o sintoma de uma febre maior que assola a gestão educacional: a priorização da expansão quantitativa sobre o rigor qualitativo.





