A genética escreve o início da história, mas o cuidado multidisciplinar define o ritmo do desenvolvimento. Neste sábado, 21 de março, o Instituto do Coração (InCor) aproveita o Dia Mundial da Síndrome de Down para apresentar os primeiros resultados de um programa que subverte a lógica do atendimento hospitalar convencional. O projeto “Corações em Sintonia”, que completa seis meses de atividades, foca no grupo de cerca de 50% das pessoas com a trissomia do 21 que nascem com malformações cardíacas, integrando a reabilitação física ao fortalecimento emocional.

Idealizado pela endocrinologista Claudia Cozer Kalil e pela cardiologista Nana Miura Ikari, o programa atende atualmente 27 famílias. A proposta vai além de monitorar válvulas ou frequências cardíacas; ela estabelece um suporte para crianças e adolescentes entre 7 e 17 anos por meio de fonoaudiologia, musicoterapia, arteterapia e fisioterapia. O objetivo é que a condição clínica não seja uma barreira para a independência. Segundo a Dra. Kalil, os ganhos práticos na estabilidade da marcha e na coordenação motora são visíveis, mas a evolução mais profunda reside na percepção de capacidade que os jovens passam a ter sobre si mesmos.
A estrutura do projeto prioriza o convívio entre pares, utilizando o espelhamento como ferramenta de aprendizado. Sob a coordenação da psicanalista Pauline Fonseca, as atividades em grupo estimulam habilidades sociais que muitas vezes ficam em segundo plano em contextos de isolamento clínico. Quando os jovens interagem e enfrentam desafios juntos, a evolução torna-se mais consistente, pois um sucesso individual acaba servindo de incentivo para o coletivo. Essa abordagem prepara o terreno para a transição para a vida adulta, fase em que a autonomia se torna o principal ativo de inclusão social.
O impacto da iniciativa se estende aos responsáveis, que participam de encontros mensais em ambiente digital. Essa rede de apoio tem se mostrado eficaz no combate à solidão que frequentemente acompanha o diagnóstico e as longas rotinas de tratamento. A troca de experiências entre pais tem gerado movimentos de advocacia social, como o compartilhamento de estratégias para melhorar a comunicação com as escolas, fortalecendo a postura ativa das famílias diante da sociedade.
Como marca da celebração neste sábado, o evento no InCor conta com a presença do presidente do Conselho Diretor, Roberto Kalil Filho. O encerramento simbólico envolve a entrega de meias pintadas à mão pelos participantes, uma referência visual às meias coloridas que, mundialmente, representam a beleza da diversidade genética. Mais do que um marco no calendário, o encontro consolida um modelo de saúde que compreende o coração não apenas como um órgão a ser reparado, mas como o motor para uma vida plena e independente.





