O caminho de Jorge Messias ao STF: entre o pragmatismo político e a teologia de Veyne

​Enquanto o Palácio do Planalto costura o apoio institucional, o AGU inicia em Salvador um roteiro de diálogos estratégicos para pacificar sua futura sabatina no Senado Federal

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A sucessão para a próxima cadeira do Supremo Tribunal Federal (STF) deixou de ser uma abstração jurídica para se transformar em um exercício de diplomacia fina à mesa de jantar. Nesta segunda-feira (12), Jorge Messias, atual advogado-geral da União e nome de confiança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, escolheu a capital baiana para um movimento simbólico e tático. Ao lado de Otto Alencar (PSD-BA), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Messias sinalizou que sua jornada rumo à Corte passará, inevitavelmente, pela construção de pontes que superem os recentes ruídos entre o Executivo e o Legislativo.

O encontro em Salvador não foi apenas uma cortesia regional. Otto Alencar, figura central no rito de passagem de qualquer indicado ao Judiciário, revelou que a conversa transitou por campos inesperados, como a obra do historiador francês Paul Veyne, “Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão”. A escolha do tema guarda uma sutileza política: Messias é evangélico, e a discussão sobre as raízes do cristianismo no Estado serve como um aceno de sofisticação intelectual e moderação, características essenciais para reduzir resistências em um Senado frequentemente polarizado por questões de costumes.

O calendário para a oficialização da indicação, entretanto, permanece atrelado ao ritmo de Davi Alcolumbre, presidente do Senado. Embora Lula tenha sinalizado o envio da mensagem presidencial para fevereiro, a velocidade do trâmite depende da temperatura política em Brasília. O governo trabalha agora para consolidar a reaproximação iniciada em dezembro, quando o presidente e Alcolumbre selaram uma trégua estratégica durante um jantar no Alvorada. A estratégia é clara: evitar surpresas no plenário e garantir que a sabatina na CCJ seja mais um rito de confirmação do que um campo de batalha.

A movimentação de Jorge Messias reflete uma nova fase da articulação governista. Ao buscar interlocutores estratégicos fora do eixo formal de Brasília, o advogado-geral tenta desarmar a narrativa de uma indicação meramente ideológica, substituindo-a pela imagem de um jurista capaz de transitar entre diferentes crenças e correntes políticas. Se o objetivo final é a toga, o caminho, por enquanto, é pavimentado pelo diálogo literário e pela paciência institucional, aguardando que o Congresso retome suas atividades para transformar o favoritismo em posse definitiva.

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