A exposição pública do músico Nando Reis sobre sua jornada de recuperação contra a dependência química, especificamente da vodca, acendeu um alerta que ultrapassa os limites dos palcos. O depoimento do ex-Titãs, que descreveu episódios de vulnerabilidade diante de ídolos como Gilberto Gil, não é apenas um desabafo pessoal; é o sintoma de uma cultura que, durante décadas, tratou o consumo excessivo como um rito inofensivo de passagem e socialização. Para especialistas, o Brasil enfrenta hoje o desafio de desmistificar a “cervejinha do fim de semana” com a mesma eficácia com que retirou o cigarro das mesas de jantar a partir dos anos 1980.
Os dados do anuário “Álcool e a Saúde dos Brasileiros: Panorama 2025” revelam a gravidade do cenário: quatro pessoas são hospitalizadas por hora no país em decorrência de complicações ligadas ao álcool. Esse impacto é o reflexo direto de uma formação geracional, especialmente entre os nascidos entre 1965 e 1996, que cresceram sob o estigma de que beber era a ferramenta primordial de pertencimento social. A banalização do consumo precoce e frequente criou um ambiente onde o “binge drinking”, o consumo pesado em curto espaço de tempo, tornou-se a norma, apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçar sistematicamente que não existe um limiar seguro para a ingestão de etanol.
A publicidade brasileira de bebidas alcoólicas opera em uma zona cinzenta que flerta perigosamente com a vulnerabilidade da juventude. Sob a égide de uma legislação permissiva, que exclui bebidas com teor alcoólico inferior a 13 graus das restrições mais severas de horário e conteúdo, o marketing da cerveja construiu um império de significados onde o consumo não é apenas um ato, mas o passaporte indispensável para a aceitação social. Para o adolescente, cuja arquitetura cerebral ainda está em pleno desenvolvimento e busca por recompensas imediatas, essa mensagem é um convite irresistível a um hábito de risco maquiado de celebração.
O grande triunfo, e o maior problema, dessa estratégia publicitária é a associação sistemática do álcool ao sucesso, à estética impecável e, sobretudo, ao pertencimento. Ao patrocinar festivais de música, influenciadores digitais e transmissões esportivas, a indústria ocupa os espaços de desejo de gerações inteiras. O resultado é a naturalização do “binge drinking”, o consumo pesado episódico, que é encarado por muitos jovens não como um abuso, mas como o combustível necessário para a diversão de fim de semana. Essa glamourização cria uma barreira psicológica que impede o adolescente de perceber o álcool como uma substância psicoativa capaz de comprometer funções cognitivas e motoras a longo prazo.
Enquanto o cigarro foi muito bem relegado ao ostracismo social por meio de campanhas que enfatizavam a perda de autonomia e o dano físico, a cerveja permanece blindada por uma narrativa de “brasilidade” e descontração. É uma contradição ética permitir que produtos comprovadamente nocivos à saúde pública sejam vendidos como sinônimos de identidade nacional. A ausência de advertências gráficas impactantes e a manutenção de uma linguagem visual jovial nas propagandas reforçam a ideia de que o perigo é uma abstração distante, algo que só acontece com o “outro”, e nunca com quem está apenas “socializando”.
Enfrentar o impacto desse marketing exige mais do que notas de rodapé sobre consumo responsável. É necessária uma revisão corajosa dos marcos regulatórios que encerrem a distinção conveniente entre diferentes graduações alcoólicas na publicidade. Se o objetivo é proteger as gerações futuras de um ciclo de dependência e hospitalizações, o Estado brasileiro precisa desconstruir a ideia de que a “cervejinha” é um acessório inofensivo. Sem a desocupação do imaginário juvenil pela indústria do álcool, a liberdade de escolha desses jovens continuará sendo, na verdade, uma decisão moldada por bilhões de reais em persuasão publicitária.





