O apito final do amigo do rei: a trajetória de Iata Anderson entre o mar e as redações

​Do futebol de areia no Leblon às grandes coberturas internacionais, jornalista paraibano deixa um legado de elegância técnica e trânsito livre nos bastidores do esporte.

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​O jornalismo esportivo brasileiro perdeu, na quarta-feira (8), uma de suas figuras mais diplomáticas e onipresentes. Iata Anderson, aos 80 anos, despediu-se em Araruama, na Região dos Lagos, após complicações decorrentes de uma pneumonia. Paraibano de Cajazeiras, Iata foi um daqueles raros profissionais que conseguiram transitar com a mesma naturalidade entre a poeira das quadras de salão e o carpete das altas esferas do poder clubístico, unindo a precisão do repórter à perspicácia do assessor de imprensa.

​Sua história confunde-se com a própria era de ouro do lazer carioca. Antes de dar voz às notícias na Rádio Globo, ele era o artilheiro do Columbia, brilhando nos icônicos campeonatos de futebol de praia que paravam o Leblon e Copacabana nas décadas de 60 e 70. Naquela época, o destino já ensaiava seus roteiros: Iata era arbitrado por jovens promissores como Arnaldo Cezar Coelho e Armando Marques, nomes que mais tarde se tornariam os pilares da arbitragem nacional enquanto ele consolidava sua carreira no rádio e na televisão.

​A transição das quatro linhas para os microfones ocorreu sob o apadrinhamento do narrador Celso Garcia. O episódio da estreia na equipe da Globo é emblemático: para um torneio de futebol de salão entre emissoras, o time vestiu uma versão estilizada do Flamengo, clube de coração de Iata, com listras verticais inspiradas no Milan. Esse início lúdico pavimentou o caminho para coberturas de fôlego, como as Copas do Mundo de 1978 e 1982. Nas memórias daqueles tempos, ficam as imagens dos treinos da Seleção sob o sol de Sevilha, onde a sede era aplacada por sucos de abacaxi em companhia de figuras como o volante Pintinho, evidenciando que Iata era, acima de tudo, um agregador.

​Sua capacidade de articulação o levou para além das cabines de transmissão. A convite de Márcio Braga, assumiu a assessoria de imprensa do Flamengo, e mais tarde, desempenhou papel fundamental na comunicação da Suderj, cuidando da imagem do Maracanã. O apelido “Amigo do Rei”, cunhado pelo narrador Antonio Porto, não era força de expressão; sua proximidade com Pelé era fruto de um comportamento ético e de um nível intelectual que impunha respeito em um meio muitas vezes ruidoso. Iata Anderson encerra seu ciclo deixando a marca de um profissional que compreendia o esporte como um fenômeno humano, muito antes de as estatísticas frias dominarem as redações.

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