O analfabetismo funcional do privilégio e o berço da barbárie

​Entre o silêncio cúmplice da mesa do jantar e a omissão do Estado, construímos um abismo onde o "não" feminino ainda precisa de legenda

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A tragédia de Copacabana não é um ponto fora da curva; é o desenho exato da nossa bússola ética quebrada. O que assistimos é um choque de eras: mulheres que, por pura necessidade de não morrerem, fizeram um doutorado em semântica do abuso, enquanto homens da mesma geração operam com um sistema operacional jurássico, onde o corpo alheio é território de conquista e o pacto de silêncio entre “os parças” é a lei suprema. O descompasso é grotesco. De um lado, uma gramática de sobrevivência refinada a duras penas; do outro, um vocabulário de grunhidos morais onde o consentimento é tratado como uma nota de rodapé incômoda.

​Essa deformidade começa muito antes do boletim de ocorrência, no ambiente supostamente sagrado da educação familiar. É na mesa do jantar, entre o prato servido pela mãe e a piada machista tolerada pelo pai, que se molda o herdeiro do privilégio invisível. Criamos meninos como pequenos deuses domésticos, dispensados de lavar a própria louça, mas autorizados a ignorar a vontade alheia. A família, muitas vezes, funciona como a primeira escola da impunidade, onde a “vontade do rapaz” é sagrada e o erro é sempre “coisa de jovem”. É nesse berço de mimos e silêncios que se ensina que ser homem é ser servido, ouvido e obedecido, mesmo quando a resposta do mundo é um sonoro e absoluto “não”.

​A escola, por sua vez, finge que a vida acontece em outra frequência. Enquanto se espreme o cérebro dos alunos para que decorem fórmulas de Bhaskara ou a tabela periódica, ignora-se a alfabetização moral básica. De que serve um diploma de engenheiro ou médico em mãos que não sabem distinguir entre desejo e invasão? A educação não pode ser apenas um treinamento para o Enem; precisa ser um pacto de civilidade. Quando a instituição de ensino se omite do diálogo diário sobre igualdade, ela se torna cúmplice do desastre. O resultado é essa conta salgada que termina invariavelmente em delegacias e hospitais, com a mulher pagando o preço de uma educação que formou profissionais, mas esqueceu de formar gente.

​O Estado, esse zelador inútil que só aparece para recolher os escombros da tragédia, limita-se a “ter política” no papel enquanto a vida real sangra. Rede de proteção sem prevenção é apenas um curativo em uma artéria jorrando. Precisamos de um choque de realidade que tire os homens desse transe medieval e os force a ler a mesma página da história que as mulheres já escrevem há décadas. Caso contrário, continuaremos a ser essa sociedade esquizofrênica: tecnológica nos aparelhos, mas absolutamente primitiva e covarde nos afetos.

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