Lula convoca Gabinete de Crise diante do incêndio global

​Em meio ao recesso, o governo brasileiro articula resposta de emergência à incursão americana, equilibrando a condenação da força com o pragmatismo da crise humanitária

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A calmaria do litoral fluminense foi interrompida na manhã deste sábado por despachos urgentes que forçaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a converter seu descanso na Restinga da Marambaia em um centro de comando remoto. A notícia da Operação Southern Spear e a subsequente captura de Nicolás Maduro dispararam alarmes no Palácio do Planalto, levando à convocação imediata de uma reunião de emergência no Itamaraty. O encontro, que reúne o alto escalão da diplomacia e da Defesa, incluindo o ministro Mauro Vieira, que encurtou suas férias, e José Múcio Monteiro, busca traçar uma linha tênue entre a tradição brasileira de não intervenção e a realidade de um vizinho em chamas. Para Lula, que já classificara intervenções armadas na região como uma catástrofe humanitária em discursos anteriores, o evento não é apenas uma crise diplomática, mas um teste de fogo para a liderança do Brasil na América do Sul.

Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.” Disse Lula.

“A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação.” Acrescentou.

Enquanto as explosões ainda ecoam em Caracas, o foco imediato de Brasília desloca-se para a linha de fronteira em Roraima. O governo federal já ativou um plano de contingência, estruturado pela Casa Civil nas últimas semanas, prevendo um deslocamento em massa de refugiados que fogem da incerteza do novo regime ou do vácuo de poder em território venezuelano.

Representantes das Forças Armadas e do Ministério da Justiça discutem o reforço logístico da Operação Acolhida, antecipando que o impacto da ofensiva de Donald Trump será sentido primeiro nos postos de saúde e abrigos de Pacaraima. No tabuleiro político, o silêncio inicial do presidente brasileiro deu lugar a uma consulta intensa com líderes regionais, como Gustavo Petro e Gabriel Boric, que já manifestaram repúdio à ação unilateral, contrastando com o apoio entusiástico vindo de Buenos Aires.

A postura do governo Lula neste sábado reside em compreender a paralisia estratégica que uma ação desta magnitude impõe. O Brasil defende publicamente a Carta da ONU e a solução pacífica de controvérsias, mas a rapidez com que a infraestrutura militar chavista foi desmantelada cria um fato consumado que o Itamaraty não pode ignorar.

Entre a condenação da violação da soberania venezuelana e a necessidade de dialogar com uma Washington revigorada por uma vitória militar rápida, o governo brasileiro tenta evitar que o país seja tragado pela polarização global que coloca China e Rússia em rota de colisão econômica com os EUA.

Este 3 de janeiro termina para o governo brasileiro não com soluções, mas com a montagem de um complexo mosaico de sobrevivência política, onde cada nota oficial emitida nas próximas horas poderá definir o papel do Brasil no novo ordenamento do continente.

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