Invisibilidade e sangue: Brasil registra uma morte LGBTQIA+ a cada 34 horas

​Mesmo com queda estatística em 2025, subnotificação mascara a persistência da violência letal contra a diversidade, concentrada majoritariamente no Nordeste.

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A gramática da violência contra a população LGBTQIA+ no Brasil em 2025 revela um paradoxo numérico. De um lado, o levantamento anual do Observatório do Grupo Gay da Bahia (GGB) aponta uma retração de 12% nos óbitos violentos em relação ao ciclo anterior; de outro, a realidade crua de que o país interrompe uma vida a cada 34 horas. Foram 257 trajetórias ceifadas por homicídios, latrocínios e outras causas externas, desenhando um mapa da intolerância que resiste a políticas públicas de proteção.

O perfil das vítimas expõe a face mais nítida dessa vulnerabilidade: o segmento dos homens gays contabilizou 156 perdas, enquanto a população trans e travesti somou 64 registros. Contudo, os especialistas do GGB advertem que esses algarismos são apenas a superfície visível de um fenômeno muito mais profundo. A ausência de protocolos padronizados de registro policial e o silenciamento familiar contribuem para uma subnotificação crônica, o que sugere que o recuo estatístico pode ser, em parte, um reflexo da ineficiência na coleta de dados, e não necessariamente uma pacificação social.

Geograficamente, o Nordeste consolidou-se como a região mais hostil, liderando o ranking nacional com 66 casos notificados. Esse eixo de violência é seguido pelo Sudeste, com 48 ocorrências, e pelo Centro-Oeste, com 33. A disparidade regional levanta debates urgentes sobre como as desigualdades socioeconômicas e o conservadorismo estrutural potencializam o risco para quem não se enquadra na cis-heteronormatividade.

A manutenção desses índices elevados coloca o Brasil em um estado de alerta permanente perante organismos internacionais de direitos humanos. Enquanto os números oscilam, a estrutura do preconceito permanece intacta, exigindo que o Estado vá além da gestão de dados e avance na criminalização efetiva e no acolhimento de uma população que, no cotidiano das ruas e lares, ainda caminha sob a sombra da incerteza e do medo.

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