A liturgia da posse em Santa Quitéria, no interior do Ceará, foi abruptamente interrompida por um enredo que parece saído de um roteiro de ficção policial, mas que reflete a nova e árdua realidade institucional brasileira. José Braga Barroso, o “Braguinha”, eleito para conduzir o destino de 40 mil cidadãos, viu o palanque ser substituído pela custódia federal poucas horas antes de assumir o cargo. O episódio, ocorrido no início de 2025, é a ponta de um iceberg que evidencia a simbiose perversa entre o poder público e as facções criminosas que disputam o controle do território cearense.

As evidências colhidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público apontam para um cenário de “Estado paralelo”. Em Santa Quitéria, a influência do Comando Vermelho não se limitou ao apoio financeiro ou logístico; manifestou-se na forma de pichações intimidatórias, destruição de veículos de opositores e ameaças diretas a servidores da Justiça Eleitoral. O vácuo deixado pela cassação de Braguinha culminou em uma eleição suplementar onde o sobrenome Barroso se manteve no poder através de seu filho, Joel Barroso, em um pleito vigiado de perto por tropas de choque e sob um clima de tensão latente.

A metástase desse fenômeno não é exclusiva de uma única localidade. Relatórios de inteligência indicam que ao menos seis municípios cearenses enfrentam o mesmo diagnóstico de infiltração. Em Potiretama e Martinópole, as acusações variam de incêndios criminosos encomendados para atingir desafetos políticos a esquemas de compra de votos financiados pelo tráfico. A dinâmica é clara: o crime organizado deixou de ser apenas um agente externo para se tornar um stakeholder direto na administração pública. Ao infiltrar representantes ou cooptar gestores, essas organizações garantem não apenas impunidade, mas o controle sobre recursos públicos e a infraestrutura logística das cidades.
O Secretário de Segurança Pública do Ceará, Roberto Sá, classifica essa penetração como “nebulosa e perigosa”, destacando que a dificuldade de distinguir onde termina o interesse público e começa o criminoso mina a confiança nas instituições. Quando uma facção impede um candidato de fazer campanha em um bairro ou ameaça um eleitor por sua escolha partidária, o que está em jogo não é apenas um cargo eletivo, mas a própria soberania do voto direto.
A resposta institucional demanda um esforço que ultrapassa o policiamento ostensivo. Especialistas e parlamentares defendem filtros mais rigorosos nas filiações partidárias e uma transparência radical na gestão dos fundos eleitorais. Enquanto o sistema político não criar mecanismos eficazes de blindagem, as cidades cearenses permanecerão no fogo cruzado entre a democracia formal e o domínio territorial das facções, onde o título de eleitor muitas vezes vale menos que a ordem emitida pelo crime organizado.





