A porta aberta do semiliberdade: o balanço das ausências no Natal fluminense

​A estatística do não retorno expõe o abismo entre o benefício jurídico e o controle do sistema prisional, com quase metade dos ausentes vinculada à principal facção do Rio.

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A liturgia do sistema prisional brasileiro prevê que a Visita Periódica ao Lar (VPL) seja o ensaio final para a ressocialização. No entanto, o fechamento do balanço das saídas temporárias de Natal no Rio de Janeiro revela uma realidade mais áspera: para uma parcela significativa da criminalidade organizada, a “saidinha” funciona como uma rota de fuga institucionalizada. Dos 1.868 internos que deixaram as galerias para as festas de fim de ano, 258 não cruzaram o portão de volta no dia 30 de dezembro.

O dado mais alarmante reside na geografia das facções. O Comando Vermelho (CV) registrou o maior índice de aproveitamento da brecha: 150 dos evadidos pertencem à organização. Isso significa que, de cada dez presos que optaram por não retornar, quase seis são integrantes da maior facção do estado.

​O caso emblemático desta edição é o de Tiago Vinicius Vieira, o “Dourado”. Com um currículo que transita entre o assalto a bancos e o tráfico internacional de armas e drogas, Dourado é um quadro técnico do crime, apontado como elo do Terceiro Comando Puro (TCP) no Mato Grosso do Sul. Sua liberdade atual não é fruto de uma decisão judicial de soltura definitiva, mas de um benefício administrativo que ignorou sua classificação de “altíssima periculosidade” e seu histórico prévio de fuga de uma unidade de segurança máxima em Campo Grande.

 

A lista de ausências não é composta apenas por soldados rasos. O vácuo deixado no sistema penitenciário reflete o reforço imediato de lideranças em territórios em disputa:
​• André Luiz de Almeida (Nestor do Tuiuti): Liderança estratégica da Zona Norte.
​• Márcio Aurélio Martinez (Bolado): Peça-chave na operação do Morro do Fallet, no coração de Santa Teresa.
• ​Sérgio Luiz Rodrigues (Salgueiro): Gerente operacional da Baixada Fluminense.

​Em contraste com o comportamento das facções tradicionais, os 44 internos ligados a milícias e forças de segurança (21 policiais e 23 milicianos) mantiveram 100% de retorno às unidades. O dado sugere uma disciplina interna distinta ou uma estratégia jurídica que prioriza a manutenção da custódia em detrimento da clandestinidade.

A legislação é clara: o benefício é um direito do preso em regime semiaberto com bom comportamento e parte da pena cumprida. Contudo, o aumento de 7% no índice de evasão do Comando Vermelho em relação ao ano anterior acende um alerta sobre a eficácia dos critérios de avaliação de risco.
​Enquanto o sistema busca o equilíbrio entre o humanismo da lei e a segurança pública, a cidade lida com o retorno de quadros experientes ao comando direto do crime organizado, desta vez sem a necessidade de escavações ou motins, mas pela porta da frente.

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