A cerimônia do Oscar consolidou-se em 2026 não como uma celebração da sétima arte, mas como o funeral de gala da própria relevância cultural. O que outrora foi o ápice do artesanato cinematográfico transformou-se em uma liturgia de autoafirmação para uma elite encastelada que, entre um brinde de champanhe e um flash de paparazzi, parece cada vez mais incapaz de distinguir o cinema real da engenharia de relações públicas.
O espetáculo começa muito antes da primeira estatueta, no ecossistema bizarro do tapete vermelho, onde o valor humano é milimetricamente medido pelo quilate das joias emprestadas e pela capacidade do artista de citar o seu estilista sem gaguejar, revelando uma vitrine de vaidades que beira o patológico. É o triunfo do simulacro, onde bilionários desfilam figurinos que custam o PIB de pequenas nações enquanto ensaiam discursos inflamados sobre justiça social e sustentabilidade, logo após desembarcarem de seus jatos particulares em uma demonstração flagrante de dissonância cognitiva que o público é instruído a aplaudir como “corajosa”.
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, ostentando um nome que soa cada vez mais anacrônico, parece ter trocado definitivamente a curadoria artística por uma planilha de Excel voltada para o marketing de virtudes e o apaziguamento de algoritmos. Os vencedores da noite raramente são escolhidos pela audácia narrativa, pela subversão estética ou pelo impacto visceral de suas obras na alma humana; em vez disso, são selecionados por sua capacidade de preencher requisitos de uma cartilha institucional higienizada que satisfaça acionistas e hashtags de redes sociais. O resultado é uma premiação previsível e estéril, onde o conceito de “melhor” foi sequestrado pelo “mais palatável” ou pelo “menos ofensivo”.
Essa decadência estética é alimentada pelo fetiche crônico do júri pelo sofrimento cenográfico e pela pornografia da transformação física: para a mentalidade tacanha de Hollywood, o ápice da atuação não reside na sutileza ou na profundidade psicológica, mas na metamorfose física drástica auxiliada por quilos de látex, próteses dentárias e dietas extremas que beiram a automutilação. Premia-se, no fim das contas, o orçamento da maquiagem e a resiliência do ego do ator, enquanto o cinema que respira, que incomoda e que foge do óbvio é relegado ao rodapé dos catálogos de streaming, invisível aos olhos de uma elite que só enxerga o próprio reflexo no espelho dourado.
O cinismo atinge seu ápice nos discursos de agradecimento, momentos de uma “consciência social de grife” onde celebridades usam quarenta e cinco segundos de fama para salvar o planeta ou resolver conflitos geopolíticos milenares, tudo sob a luz benevolente de refletores que consomem energia suficiente para iluminar uma cidade pequena.
É uma encenação teatral de empatia, onde a dor do mundo é utilizada como acessório de moda para conferir profundidade a indivíduos que vivem em redomas de vidro blindado. Essa desconexão entre o discurso e a prática não é apenas irônica; é ofensiva para um espectador que luta contra a inflação enquanto assiste a uma chuva de confetes biodegradáveis cair sobre vestidos de alta-costura.
A indústria, em sua arrogância cega, não percebe que o prestígio que ela tenta manufaturar não tem mais lastro na realidade. O Oscar tornou-se o museu de si mesmo, uma instituição em negação tentando convencer o mundo de que um boneco de metal de 34 centímetros ainda possui o poder de ditar os rumos da cultura em uma era de gratificação instantânea e descartabilidade absoluta.
Ao final da noite, quando o prêmio de Melhor Filme é entregue em meio a lágrimas milimetricamente ensaiadas, o que resta é um vazio absoluto e uma sensação de tempo desperdiçado. O cinema real, aquele que sangra, que desafia e que não precisa de permissão para existir, continua acontecendo longe dali, nas margens, nas periferias e nas sombras que o brilho ofuscante do ouro teima em ignorar por medo de que a verdade estrague a festa.
Enquanto as luzes do Dolby Theatre se apagam e os convidados se retiram para festas exclusivas onde a desigualdade que eles tanto criticam é o critério de entrada, o Oscar permanece como uma relíquia suntuosa e irrelevante, um eco distante de uma hegemonia que já passou, restando ao público o papel inglório de figurante em uma celebração que, na verdade, é apenas o narcisismo de uma indústria em sua fase terminal de decadência.





