A ficção como resgate: a paraibana Carol Rangel assume cadeira na Academia Brasileira de História e Literatura

​Doutora em Relações Internacionais e autora da trilogia "As Damas do Café", a paraibana une rigor acadêmico e narrativa oitocentista ao ocupar vaga dedicada a José Lins do Rego

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A historiografia brasileira ganha um novo fôlego narrativo com a ascensão de Carol Rangel à Academia Brasileira de História e Literatura (ABHL). O anúncio, que repercutiu nos círculos intelectuais nesta semana, formaliza o reconhecimento de uma trajetória que se equilibra entre o rigor das teses doutorais e a sensibilidade do romance histórico. Natural de João Pessoa, a escritora agora ocupa a Cadeira nº 48, um posto de simbolismo ímpar para as letras nordestinas, uma vez que tem como patrono o mestre do regionalismo, José Lins do Rego.

Rangel não chega à Academia apenas pelo mérito da ficção, mas pela densidade da pesquisa que a sustenta. Com uma formação multifacetada que atravessa o Direito e o Jornalismo na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a autora consolidou seu perfil intelectual com um doutorado em Relações Internacionais pela Universidade Nova de Lisboa. Essa bagagem acadêmica serve de alicerce para sua produção literária, onde o Brasil do Segundo Reinado deixa de ser um cenário estático para se tornar um organismo vivo, pulsante de tensões sociais e políticas.

Sua obra de maior fôlego, a trilogia As Damas do Café, iniciada em 2025, é um exercício de arqueologia literária. Nela, Carol Rangel disseca as engrenagens do Império sob a ótica das minorias silenciadas. Ao focar na condição feminina e nas cicatrizes da escravidão, a escritora desafia a visão romântica do oitocentismo, entregando ao leitor uma reconstrução crítica da memória nacional. É justamente esse trânsito entre a análise diplomática e a prosa criativa que define sua atuação: uma ponte necessária entre o arquivo histórico e a consciência contemporânea.

Como servidora pública federal e acadêmica, a nova imortal da ABHL personifica o intelectual público moderno, aquele que não se isola no gabinete. Sua entrada na instituição reforça o compromisso da Academia com uma literatura que preserva o patrimônio cultural brasileiro sem ignorar as complexidades que moldaram a desigualdade no país. Ao suceder o legado de José Lins do Rego sob o teto da ABHL, Carol Rangel reafirma que a história, quando bem contada, é a ferramenta mais poderosa para a compreensão do presente.

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