A estrada de ouro: por que o governo autorizou o desvio de uma rodovia federal no RN

​Sob o asfalto da BR-226, no Seridó potiguar, repousa uma fortuna estimada em US$ 3 bilhões; mineradora canadense assumirá custos de nova variante para extrair 20 toneladas de metal precioso.

Compartilhe o Post

​A pacata Currais Novos, encravada no semiárido do Rio Grande do Norte, está prestes a testemunhar uma manobra de engenharia e logística tão ambiciosa quanto o tesouro que a motiva. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) deu o aval definitivo para que a Aura Minerals, gigante canadense do setor de mineração, apague um trecho da BR-226 do mapa. O motivo não é uma falha geológica ou um desastre natural, mas o que está enterrado a 300 metros de profundidade: um depósito de 670 mil onças troy de ouro.

Vista por satélite da região onde está o projeto Borborema

O projeto Borborema, como é batizado, transforma a infraestrutura pública em um tabuleiro de xadrez econômico. Para acessar as 20,8 toneladas de metal que jazem sob o traçado original, a empresa construirá uma nova variante de 6 quilômetros, ligeiramente maior que os 5,3 km atuais. O acordo de cooperação técnica estabelece uma regra rígida de “ônus zero” para o Estado: a mineradora banca o projeto, a execução e as desapropriações. O tráfego só será desviado quando o novo asfalto estiver pronto, garantindo que o fluxo entre o interior potiguar e a capital não sofra interrupções.

Trecho em rosa será minerado, e traçado em vermelho e verde será o novo da BR-226

A viabilidade do negócio é impulsionada por um cenário global de incertezas. Com o ouro operando em patamares históricos, chegando a superar a marca de US$ 5 mil por onça em picos recentes de volatilidade internacional, a exploração de depósitos antes considerados marginais tornou-se altamente lucrativa. A Aura projeta uma vida útil de duas décadas para a mina, com uma receita líquida que ultrapassa os R$ 16 bilhões. A eficiência é outro trunfo: a planta em Currais Novos ostenta uma taxa de recuperação metalúrgica de 92,1%, um índice de excelência que minimiza o desperdício de minério.

Sede da Aura Minerals em Currais Novos (RN)

Contudo, a riqueza subterrânea traz à tona dilemas de superfície. A exploração ocorre no coração do Seridó Geoparque Mundial da Unesco, uma área de conservação que busca equilibrar o desenvolvimento econômico com a preservação de sítios geológicos de relevância internacional. Embora a mineradora utilize uma solução sustentável para o problema da água, tratando o esgoto bruto da cidade para uso industrial através de uma adutora de 27 km, o diálogo com os órgãos de governança local ainda é um ponto de fricção. Especialistas alertam que, além do tratamento de efluentes, o impacto sonoro e as vibrações decorrentes das detonações exigem um monitoramento rigoroso para não comprometer o patrimônio histórico e a qualidade de vida das comunidades vizinhas.

​A operação marca o renascimento de uma vocação mineira que remonta à década de 1940, mas agora com escala industrial e tecnologia estrangeira. O cronograma prevê que as máquinas comecem a abrir o novo caminho em abril, com entrega da rodovia em maio de 2027. Enquanto os engenheiros planejam a remoção de mais de 327 mil metros cúbicos de terra para a nova estrada, os investidores olham para o subsolo, onde o brilho do ouro promete reconfigurar a economia de uma das regiões mais áridas, e agora mais valiosas, do Nordeste brasileiro.

Compartilhe o Post

Mais do Nordeste On.