A chave de vidro: o resgate bilionário que expõe a armadilha do FGTS

​Segunda parcela de R$ 3,9 bilhões começa a ser depositada hoje, mas endividamento bancário impede que milhões de brasileiros toquem na cor de seu próprio dinheiro.

Compartilhe o Post

A economia brasileira inicia esta segunda-feira, 2 de fevereiro, sob o signo de uma correção de curso financeira. O Governo Federal deu o sinal verde para o desembolso de R$ 3,9 bilhões, destinados a 822,6 mil trabalhadores que, embora tenham aderido ao polêmico Saque-Aniversário, viram seus recursos ficarem retidos após demissões ocorridas entre janeiro de 2020 e o final de 2025. O movimento, que se estende até o dia 12 de fevereiro, tenta mitigar o que o Ministério do Trabalho e Emprego classifica como uma distorção estrutural do Fundo de Garantia.

A liberação atual é o desdobramento de uma ofensiva institucional contra a lógica de “bloqueio” que congelou saldos remanescentes nos últimos cinco anos. Se por um lado a medida injeta liquidez no mercado, por outro, ela joga luz sobre uma realidade árida: a “financeirização” do amparo ao trabalhador. Desde a criação da modalidade em 2020, o Saque-Aniversário drenou R$ 197 bilhões do fundo, mas a matemática do destino final desses recursos é cruel. Apenas 40% chegaram diretamente ao bolso do cidadão; a fatia majoritária de 60% foi drenada pelo sistema bancário através das antecipações de crédito.

O cenário revela uma armadilha de liquidez. Dos mais de 14 milhões de brasileiros aptos a resgatar valores nesta fase de transição, a grande maioria esbarra no balanço das instituições financeiras. Cerca de 9,9 milhões de pessoas receberão apenas frações do que esperavam, devido a compromissos bancários prévios. Pior é a situação de 2,1 milhões de trabalhadores cujo saldo está totalmente empenhado, tornando a liberação do governo um evento meramente contábil, sem efeito prático no orçamento doméstico.

O ministro Luiz Marinho tem sido enfático ao descrever a modalidade como uma subversão do propósito original do FGTS. Concebido como um colchão de segurança para o desemprego, o fundo tornou-se, na prática, uma garantia para empréstimos de juros altos, deixando o trabalhador desassistido no momento da rescisão. Atualmente, 28,5 milhões de brasileiros possuem operações ativas de antecipação, um contingente que reflete a urgência do consumo imediato em detrimento da segurança previdenciária.

Para quem possui valores a receber e não comprometeu o saldo com bancos, o processo é fluido. O crédito ocorre de forma automática para quem possui contas cadastradas no aplicativo oficial. Para os demais, a alternativa resta no atendimento físico da Caixa e casas lotéricas. Contudo, para além do guichê, o debate que se impõe é sobre a sobrevivência do modelo: até que ponto a liberdade de saque compensa a vulnerabilidade social em tempos de crise? A resposta parece estar no extrato bancário de milhões de brasileiros que, hoje, veem o dinheiro passar, mas não ficar.

Compartilhe o Post

Mais do Nordeste On.