A poluição dos mananciais ganhou um adversário tecnológico nascido da colaboração entre duas instituições públicas de ensino em Pernambuco. Pesquisadores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFPE – Campus Recife) e do Colégio Militar do Recife (CMR) desenvolveram o FilterBoat, uma plataforma flutuante autônoma projetada para despoluir rios e reservatórios, com foco na remoção de resíduos complexos, como sobras de medicamentos, que os sistemas tradicionais de tratamento muitas vezes não conseguem reter.

O dispositivo funciona como uma estação móvel de tratamento. Ao navegar por águas afetadas pelo descarte incorreto de compostos químicos, o protótipo capta o recurso e o direciona por módulos internos de filtragem. O grande diferencial ecológico do projeto está no elemento filtrante: o biochar, um carvão vegetal produzido a partir da baronesa (Eichhornia crassipes). A planta, que frequentemente se prolifera em excesso devido à degradação ambiental dos rios locais, foi transformada em solução. Após passar pela retenção física promovida por esse carvão, a água recebe uma descarga de ozônio, processo que elimina os microrganismos restantes antes de devolvê-la limpa ao ecossistema.

A divisão do trabalho seguiu a especialidade de cada laboratório. O grupo de pesquisa RailBee, do IFPE, liderado pelo professor Rômulo Araújo e pelo estudante Edson Carvalho, assumiu o desenvolvimento da engenharia do ecobarco, o que inclui a estrutura flutuante, a prototipagem e a integração dos sistemas eletrônicos embarcados. Do outro lado, a equipe do Colégio Militar ficou responsável pelos ensaios químicos, avaliando a capacidade de adsorção dos materiais e a segurança biológica dos elementos filtrantes.

Antes de se transformar em cooperação técnica, a união entre as instituições começou por um acaso de bastidores em uma premiação científica interestadual. No momento em que Edson Carvalho subiria ao palco para receber o prêmio de melhor projeto de Pernambuco, o grupo percebeu que não tinha a bandeira do estado para a foto oficial. Ao notar o impasse, uma professora do CMR arremessou a bandeira de sua própria comitiva para o estudante. O contato inicial estreitou-se meses depois, durante a Feira Garança, organizada pelo colégio militar, onde os professores e alunos decidiram unificar os seus campos de estudo.
A eficiência do sistema levou os estudantes e orientadores à final nacional do Stockholm Junior Water Prize (SJWP), principal premiação global para jovens cientistas dedicados à preservação dos recursos hídricos, organizada pelo Stockholm International Water Institute. O robô pernambucano figurou no grupo dos cinco melhores projetos do país. O reconhecimento valida o esforço de aproximar o ensino técnico e a pesquisa de base para gerar respostas práticas à crise ambiental urbana, demonstrando que o reaproveitamento de biomassa nativa e a automação podem andar juntos na recuperação ambiental.
Com assessoria





