A Copa do Mundo de 2026, com seu inchaço burocrático de 48 seleções, provou que a FIFA alcançou seu grande objetivo: transformar o maior espetáculo da Terra em uma firma que funciona das nove às cinco. Nas semifinais, a lógica, essa criatura sem graça, dita que os engomados de sempre deem as cartas. Espanha, França, Inglaterra e Argentina seguem no torneio, carimbando o passaporte com a frieza de quem bate cartão em repartição pública.
A Espanha joga um futebol tão limpo e estéril que parece desenhado por um algoritmo de inteligência artificial focado em retenção de posse. A França resolve suas pendências com a eficiência de um banco de investimentos. Enquanto isso, a Argentina avança arrastando um romantismo tardio, sobrevivendo a prorrogações contra a Suíça como quem se recusa a aceitar que o expediente acabou. É o triunfo dos favoritos, os ricos que gastam a bola com a parcimônia de quem economiza na conta de luz.
Do outro lado do balcão, os não favoritos trouxeram ao torneio a única coisa que o dinheiro da entidade máxima não compra: o caos puro. Marrocos empurrou o Canadá para fora com a autoridade de quem não leu o roteiro pré-estabelecido. O Egito flertou com o épico antes de sucumbir ao pragmatismo argentino. Essas seleções periféricas operam na base do improviso, a única força capaz de desestabilizar as potências europeias que tratam o gramado como uma planilha do Excel.
E o Brasil? A nossa seleção assiste às semifinais pela televisão, cortesia de uma eliminação precoce nas oitavas de final para a Noruega. Perder por 2 a 1 para um país cujo esporte nacional envolve esquis e neve não é apenas um resultado; é um diagnóstico.
Enquanto a Inglaterra joga sob o peso de décadas de cobrança e a Espanha aprimora seu xadrez de passes, o Brasil entrou em campo com a empáfia de quem acredita que o passado joga o presente. Faltou à equipe o foco corporativo dos franceses e a fome desgovernada dos marroquinos. Sobrou o tédio dos privilegiados. A eliminação nas oitavas foi o preço justo cobrado por um futebol que abriu mão da inteligência em nome de um status que já não se sustenta fora das propagandas de material esportivo.
No final das contas, o torneio segue seu curso natural rumo à Nova Jersey. O torcedor brasileiro, agora desprovido de obrigações patrióticas, pode finalmente desfrutar do futebol pelo que ele realmente é quando despido do nacionalismo: um belo e rentável negócio de entretenimento.





