O sertão mineiro, com sua fala emaranhada e mística, prepara-se para cruzar novas fronteiras literárias com a precisão de quem reconstrói um dialeto próprio. Marco da literatura brasileira que completa sete décadas, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, receberá no início de 2027 edições inéditas em inglês e alemão. O movimento editorial tenta corrigir um revés histórico: dar ao leitor estrangeiro não apenas a sequência dos fatos narrados pelo jagunço Riobaldo, mas a experiência estética e a costura verbal que transformaram o livro em um monumento cultural.
A tarefa exigiu paciência de ourives. Na versão em língua inglesa, intitulada Vastlands: The crossing, a tradutora australiana Alison Entrekin dedicou mais de dez anos ao texto, em um processo iniciado em 2014. Paralelamente, o tradutor alemão Berthold Zilly conduz o mergulho na prosa roseana desde 2011. Ambos assumiram o compromisso de não amaciar o terreno acidentado da escrita de Rosa, característica que isolou a obra internacionalmente por mais de meio século devido à dificuldade de transposição de seus neologismos e de sua sintaxe peculiar.
O mercado de língua inglesa, em especial, convive com uma lacuna antiga. A única tradução disponível até então, lançada em 1963 por Harriet de Onís e James L. Taylor sob o título The devil to pay in the backlands, foi alvo de pesadas críticas ao longo dos anos. Na tentativa de tornar a leitura fluida para o público norte-americano e britânico, os profissionais da época optaram por normalizar o vocabulário, eliminando as subversões gramaticais e as palavras inventadas pelo autor. O resultado foi uma narrativa linear que preservou o enredo de disputas e amores rurais, mas perdeu a poesia bruta que define o original.
Para romper com esse histórico, os novos projetos adotam uma postura de recriação ativa. Em vez de buscar correspondências exatas que não existem nos dicionários tradicionais, os tradutores passaram a decifrar a lógica de formação das palavras de Guimarães Rosa para aplicar as mesmas regras nos novos idiomas. A maleabilidade da língua inglesa e a capacidade de aglutinação do alemão servem agora de matéria-prima para acomodar o ritmo e o sotaque do interior mineiro. Com os lançamentos programados para o próximo ano, a expectativa é que o clássico finalmente ocupe no exterior o mesmo patamar de inovação atribuído a obras experimentais de James Joyce e de Samuel Beckett.





