O cofre e o fuzil: Operação Cítrico corta laços entre a gestão de Cabedelo (PB) e o crime organizado

​Ação conjunta da Polícia Federal, GAECO e CGU afasta prefeito e mira esquema de R$ 270 milhões que transformou contratos públicos em combustível para facções criminosas.

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​A fronteira entre o gabinete oficial e o crime organizado tornou-se o alvo central de uma ofensiva institucional nesta terça-feira. Sob o nome de Operação Cítrico, uma força-tarefa composta pela Polícia Federal, o Ministério Público da Paraíba e a Controladoria-Geral da União avançou sobre a administração municipal de Cabedelo para desarticular um consórcio que, segundo os investigadores, fundia interesses políticos, empresariais e bélicos. No centro do escrutínio está o uso da máquina pública não apenas para o enriquecimento ilícito, mas como infraestrutura logística para a “Tropa do Amigão”, braço paraibano da facção Comando Vermelho.

​A investigação aponta para um cenário de infiltração institucional sem precedentes na região. Em vez de apenas desviar verbas, o grupo teria estabelecido um sistema de contratação de mão de obra que servia de fachada para alocar membros da facção dentro das estruturas da prefeitura. Esse mecanismo garantia ao crime organizado uma blindagem estratégica e uma base de influência territorial financiada pelo próprio contribuinte. O volume financeiro sob suspeita é vultoso: os contratos analisados somam cerca de R$ 270 milhões, valores que circulavam entre empresas fornecedoras e o caixa do crime sob a aparência de legalidade administrativa.

​O impacto imediato da operação foi sentido na cúpula do Executivo local. Por determinação judicial, o atual prefeito de Cabedelo foi afastado do cargo, juntamente com outros servidores públicos envolvidos no esquema. A medida busca estancar a continuidade da sangria dos cofres públicos e evitar que a rede de influência interfira na coleta de provas. Ao todo, 21 mandados de busca e apreensão foram executados, marcando o início de uma nova fase da apuração que tenta detalhar o caminho exato do dinheiro, desde a assinatura dos editais fraudados até o destino final nas mãos da organização criminosa.

​O que se desenha, a partir das evidências colhidas, é um modelo de corrupção que ultrapassa a mera propina. A Polícia Federal e os órgãos de controle enxergam uma simbiose onde o contrato administrativo passa a ser uma ferramenta de controle social e poder paralelo. Os envolvidos agora enfrentam acusações que vão da frustração do caráter competitivo de licitações à lavagem de dinheiro e financiamento de organização criminosa. Enquanto a investigação avança para os próximos desdobramentos, a operação estabelece um marco na repressão à ocupação do Estado por grupos armados, sinalizando que a gestão de recursos públicos em Cabedelo passará por uma rigorosa depuração sob os olhos da justiça federal.

Com assessoria

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