Silêncio rompido: o alarme dos afastamentos por violência de gênero no mercado de trabalho

​Dados do Ministério da Previdência revelam salto de 313% em auxílios-doença motivados por agressões contra mulheres em quatro anos

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​A barreira que separa a vida privada do ambiente corporativo está sendo derrubada por uma realidade estatística alarmante. O que antes ficava restrito ao ambiente doméstico ou ao registro policial agora se manifesta de forma objetiva nas planilhas de recursos humanos e nos cofres da Previdência Social. Em um intervalo de apenas quatro anos, o volume de mulheres que precisaram interromper suas atividades profissionais em razão de danos físicos, abusos psicológicos ou violência sexual apresentou uma escalada drástica, expondo a fragilidade das redes de proteção atuais.

​O levantamento oficial do Ministério da Previdência Social aponta que, em 2025, 91 seguradas do INSS foram contempladas com auxílios decorrentes de incapacidade gerada por violência. O número pode parecer modesto em termos absolutos, mas a gravidade reside na curva de crescimento: em 2021, o sistema registrava apenas 22 ocorrências dessa natureza. Esse salto de 313% indica não apenas um possível aumento da agressividade social, mas também uma mudança na percepção das vítimas, que passam a buscar o amparo legal para suas sequelas, ainda que o estigma sobre o tema permaneça elevado.

​A subnotificação, no entanto, continua sendo um entrave para a compreensão exata do cenário. Na vasta maioria dos atestados médicos que fundamentam esses afastamentos, a autoria das agressões é omitida, dificultando a responsabilização e a criação de políticas públicas direcionadas. Quando os registros são detalhados, o padrão familiar se confirma, com cônjuges e parceiros figurando como os principais agressores. No setor privado, a tendência de alta se repete. Dados da empresa de benefícios VR corroboram a urgência do debate: a companhia identificou 58 ausências por agressão em 2025, um avanço de 152% na comparação com o biênio anterior.

​A situação impõe um desafio imediato para a gestão de pessoas e para o Estado. O afastamento do trabalho é o último estágio de um ciclo de violência que compromete a autonomia financeira da mulher, elemento fundamental para que ela consiga romper o vínculo com o agressor. Quando a violência física ou o colapso emocional impedem o exercício da profissão, o problema deixa de ser uma questão de segurança pública isolada para se tornar um gargalo econômico e social. O aumento desses índices exige que as empresas abandonem a neutralidade e assumam protocolos de acolhimento que vão além da burocracia do RH, transformando o local de trabalho em um ponto de apoio seguro.

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