A ciência desce o muro: Fiocruz testa entrega de PrEP em redutos juvenis de Salvador e SP

​Iniciativa inverte a lógica do sistema de saúde ao levar a profilaxia contra o HIV diretamente aos territórios periféricos e espaços de lazer por meio de educadores pares.

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​A distância entre as unidades de saúde e a juventude periférica não se mede apenas em quilômetros, mas em barreiras simbólicas de estigma e burocracia. Para romper esse isolamento, a Fiocruz Bahia inaugura nesta sexta-feira (10) o estudo COMPrEP. A proposta transfere o eixo da prevenção do HIV dos consultórios tradicionais para as ruas e centros de convivência, testando se a desmedicalização do acesso pode ser a chave para proteger adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade.

​O projeto foca na faixa etária entre 15 e 24 anos, com olhar atento à população LGBTQIA+. A estratégia central abandona a formalidade do jaleco em favor da identificação direta: são os educadores pares, jovens das próprias comunidades, que assumem o papel de acolher e orientar seus semelhantes. Esses mediadores são responsáveis por traduzir informações técnicas e estabelecer laços de confiança que o serviço público, muitas vezes engessado, não consegue alcançar.

​Ao todo, 1,4 mil voluntários em Salvador e São Paulo serão acompanhados durante um ano. A pesquisa opera sob um modelo comparativo de eficácia: parte dos participantes seguirá o fluxo padrão das unidades de saúde, enquanto a outra metade terá acesso à PrEP por meio do braço comunitário, sob supervisão clínica mediada pelos educadores locais. O objetivo é observar se a proximidade física e cultural reflete em um início mais rápido do tratamento e, principalmente, na continuidade do uso do medicamento.

​Laio Magno, pesquisador da Fiocruz Bahia e professor da Uneb, aponta que o protagonismo comunitário é o que valida a política pública. Ao reconhecer que o jovem muitas vezes evita o hospital, mas frequenta o coletivo cultural ou a praça do bairro, o COMPrEP busca adaptar o Estado à realidade social, e não o contrário. Os indicadores colhidos servirão de base para futuras atualizações nas diretrizes do Ministério da Saúde.

​A coalizão que sustenta o estudo une frentes acadêmicas brasileiras e internacionais, com a participação da UFBA, USP e a Universidade do Alabama, além do financiamento do Instituto Nacional de Saúde (NIH) dos Estados Unidos. O esforço conjunto entre universidades e organizações civis tenta responder a um desafio persistente: como estancar o avanço do vírus em populações que historicamente são as últimas a serem alcançadas pelas inovações da medicina preventiva.

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