O arquiteto das sagas e o tempo da delicadeza

​Entre o rigor do estúdio e as calçadas de João Pessoa, a crônica de um convívio com a integridade inabalável de Vital Farias

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Para entender a magnitude de Vital Farias, é preciso compreender que ele não foi apenas um músico; foi um fenômeno de resistência cultural que equilibrava o rigor de um violonista clássico com a alma de um menestrel das caatingas. Sua trajetória é marcada por uma independência feroz, ele foi um dos primeiros grandes artistas brasileiros a romper com as gravadoras multinacionais para fundar seu próprio selo, o Kuarup, buscando o controle absoluto de sua narrativa e de seu som.

​Houve um capítulo particular dessa história, escrito sob o sol de João Pessoa, que revelou a face mais humana e política desse mestre. Foram quatro meses de uma convivência que desafiava a lógica da pressa. Em um estúdio de gravação na capital, o tempo não era medido pelo relógio, mas pela densidade das ideias. Eu, posicionado e atento, operava como o tradutor visual desse universo. Por trás das câmeras, testemunhei o que poucos viam: a construção de um discurso que não visava apenas a urna, mas a alma do eleitor. Vital não se submetia ao marketing; ele o subvertia. Se o roteiro pedia uma frase de efeito, ele devolvia um pensamento de impacto, carregado da mesma ética que o fez denunciar o extermínio da floresta na “Saga da Amazônia” décadas antes.

​No silêncio tenso do estúdio, entre os ajustes de luz e os testes de som, Vital transformava o ambiente. Bastava um acorde em seu violão, um instrumento que ele dominava com a precisão e a sensibilidade de um poeta phooddaa, para que o set de filmagem, feito apenas por nós, eu e ele (exigência dele), se tornasse um templo. Eu captei esses instantes de transcendência, onde o candidato se fundia ao artista, e a política deixava de ser uma disputa de cargos para se tornar uma defesa intransigente da identidade paraibana. Era um privilégio silencioso observar como ele articulava a defesa da fruticultura do Vale do São Francisco e das plantações de coco do Sertão paraibano, com a mesma paixão com que discutia a métrica de um soneto.

​Mas a crônica de Vital Farias também se escrevia ao ar livre, nas calçadas de João Pessoa. Encontrá-lo casualmente pela orla de Cabo Branco, em padarias, esquinas do Tambiá, ou pelos becos do Centro Histórico era esbarrar na própria história da música brasileira. Vital caminhava com a altivez de quem conhecia o chão que pisava. O povo, ao reconhecê-lo, não buscava apenas o autor de “Ai Que Saudade de Ocê”, mas o intelectual que nunca baixou a guarda. Nas conversas de rua, ele revelava uma generosidade intelectual rara, parando para ouvir o vendedor ambulante ou o estudante de música com a mesma atenção dedicada aos grandes palcos do mundo.

​O santuário de sua vida, contudo, permanecia sendo o seu estúdio pessoal. Aquele refúgio era uma extensão de sua mente: cercado de madeiras nobres, cordas de nylon e uma biblioteca que atravessava séculos de conhecimento. Ali, longe do ruído eleitoral, Vital revelava sua face mais autêntica. Era o mestre que, mesmo após ter dividido palcos com os maiores ícones do “Grande Encontro”, como Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, ainda se preocupava com o destino das águas do Rio Paraíba e com o apagamento da cultura popular.

​Aquela jornada de quatro meses, sob a vigilância precisa de quem documentou cada gesto, mostrou que Vital Farias viveu em estado de obra. Ele não separava a nota musical da posição política; para ele, a afinação do violão e a afinação do caráter eram a mesma coisa. O que fica, para além das lembranças das gravações e dos encontros casuais, é o retrato de um homem que utilizou sua voz para que o silêncio nunca fosse a resposta. Vital atravessou a vida como uma melodia inesquecível: complexa, profunda e profundamente enraizada no coração da gente.

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