O Algoritmo agora quer o seu CPF: TikTok mira licença bancária para virar o “Nubank da dancinha”

​Entre dancinhas de 15 segundos e vídeos de receitas duvidosas, a ByteDance articula com o Banco Central para transformar o scrolling infinito em uma jornada de crédito e consumo.

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​O Brasil é um caso de estudo para qualquer antropólogo digital, mas para a ByteDance, somos apenas uma imensa planilha de 131 milhões de linhas prontas para serem monetizadas. Não bastou colonizar o tempo livre de 80% da população adulta; agora, a gigante chinesa quer o privilégio de gerenciar o saldo bancário que sobra após os boletos. A recente visita de Kingsley Coultas, o homem forte dos pagamentos globais da plataforma, a Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, não foi para trocar dicas de engajamento. O objetivo é burocrático, pragmático e um tanto audacioso: obter as licenças de Instituição de Pagamento e de Sociedade de Crédito.

Se a estratégia prosperar, o TikTok deixará de ser apenas o lugar onde você perde duas horas vendo reformas de casas na Indonésia para se tornar o lugar onde você financia a sua própria reforma. A ideia é fechar o ecossistema. Hoje, o usuário vê um anúncio, sai do app e usa o banco tradicional para comprar. Amanhã, a ByteDance quer que esse trajeto seja tão curto quanto um vídeo curto: o dinheiro entra via conta digital própria, o produto é adquirido no TikTok Shop e, se o saldo estiver curto, o próprio algoritmo, que já conhece seus desejos antes mesmo de você, oferece aquele empréstimo amigo.

É uma tentativa de replicar o sucesso do Douyin Pay no mercado chinês, após um tropeço notável na Indonésia. No Brasil, o terreno parece mais fértil, ou talvez mais viciado em facilidades digitais. Ao investir R$ 200 milhões em um data center no Ceará, a empresa sinaliza que não está aqui para brincar de rede social, mas para fincar infraestrutura. Se o Nubank revolucionou ao tirar a gravata dos bancários, o TikTok promete colocar filtros de beleza na sua fatura atrasada.

Resta saber se o brasileiro, já mestre em se endividar no cartão de crédito, está pronto para ver o “banco” e o “entretenimento” fundidos em uma única interface viciante. A ByteDance não quer apenas que você curta o conteúdo; ela quer que você pague por ele, com ele e através dele. No fim das contas, a maior inovação da empresa talvez não seja o algoritmo de recomendação, mas a capacidade de transformar um “mimo” para criadores em uma transação bancária com taxas de juros reais. Prepare o bolso: o próximo desafio viral pode ser pagar o cheque especial antes do vencimento.

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