Enquanto o sol se põe sobre o espelho d’água do Açude Velho, as curvas de concreto projetadas por Oscar Niemeyer no Museu de Arte Popular da Paraíba lembram que Campina Grande não é uma cidade comum do interior. Conhecida como a “Rainha da Borborema”, o município de 440 mil habitantes conseguiu um feito raro no Brasil: transitar de uma economia puramente agrícola para o topo da pirâmide tecnológica global, sem perder o ritmo do triângulo e da zabumba.

A trajetória campinense é marcada por ciclos de inovação que começaram bem antes da era digital. Na primeira metade do século XX, a cidade era o principal entreposto comercial de algodão do país. O volume de exportações era tão expressivo que a Newsweek a comparou a Liverpool, na Inglaterra. Esse legado não virou apenas peça de museu; ele evoluiu. Hoje, a Embrapa Algodão mantém a cidade no mapa da moda internacional com o desenvolvimento de fibras naturalmente coloridas, que eliminam processos químicos de tingimento e conquistam passarelas europeias pela sustentabilidade.

No entanto, o novo “ouro” da região não é colhido no campo, mas processado em chips. Com a chegada do primeiro mainframe da IBM no Nordeste, ainda em 1967, a cidade plantou as sementes de um ecossistema educacional robusto. O resultado é uma densidade intelectual impressionante: Campina Grande possui um doutor para cada 590 moradores, uma proporção seis vezes superior à média brasileira. Esse capital humano alimenta dezenas de empresas de software e centros de pesquisa que transformam a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) em uma referência de exportação de talentos e soluções digitais.

Essa sofisticação convive em harmonia com a grandiosidade cultural. Em 2025, o Parque do Povo reafirmou sua magnitude ao atrair mais de 3 milhões de pessoas durante as festividades juninas. O evento, que injeta centenas de milhões de reais na economia local, não é apenas uma festa, mas uma operação logística e turística que ocupa a cidade de maio a julho, aproveitando as temperaturas amenas, raras para o padrão nordestino, proporcionadas pela altitude de 551 metros.

Para quem percorre suas ruas, a experiência vai além do roteiro histórico do Museu do Algodão ou da Vila do Artesão. A cidade funciona como um ponto de convergência para o desenvolvimento regional, conectada por rodovias modernas a João Pessoa e Recife, e servida por um aeroporto que opera como hub do interior. Campina Grande prova que o desenvolvimento econômico de uma metrópole regional não precisa escolher entre o passado de suas fibras e o futuro de seus códigos de programação; ela escolhe, com maestria, ambos.





