O silêncio das salas vazias: insegurança e novos riscos afastam jovens das escolas brasileiras

​Dados da PeNSE 2024 revelam que o medo dentro e fora dos colégios, somado à crise da pobreza menstrual e à explosão dos cigarros eletrônicos, redefine os desafios da educação nacional.

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A escola brasileira, tradicionalmente vista como um porto seguro para o desenvolvimento, enfrenta uma crise de permanência que vai muito além das notas baixas. Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), divulgados pelo IBGE, traçam um cenário onde o portão da instituição se tornou uma barreira psicológica e física. Em 2024, a insegurança, seja no trajeto ou dentro das próprias salas, impediu que mais de 3,2 milhões de adolescentes entre 13 e 17 anos frequentassem as aulas no último mês. O aumento da violência interna, que saltou quase três pontos percentuais desde 2019, sugere que o ambiente de convivência escolar está sob pressão severa.

Para além da violência urbana, o levantamento expõe uma negligência biológica e social que penaliza o gênero feminino. A menstruação, antes um tema invisível, agora aparece com contornos estatísticos nítidos: 15% das estudantes faltaram às aulas por não terem acesso a absorventes. Esse dado reflete uma desigualdade básica que compromete o aprendizado e a dignidade das jovens, evidenciando que a infraestrutura educacional brasileira ainda falha em prover o essencial para a continuidade da vida acadêmica das meninas.

No campo do comportamento e saúde, o relatório apresenta um paradoxo geracional. Enquanto os indicadores de consumo de álcool, drogas tradicionais e cigarro de papel apresentaram queda, surgiu uma nova dependência tecnológica. O uso de dispositivos eletrônicos para fumar, os vapes, triplicou no intervalo de cinco anos, atingindo mais de um quarto dos estudantes. A popularização desses aparelhos, muitas vezes mascarados por sabores e design moderno, impõe um desafio inédito para as políticas de saúde pública, que agora precisam lidar com uma forma de tabagismo que se infiltra com facilidade nos grupos de adolescentes.

​O dado mais alarmante da pesquisa, no entanto, reside na integridade física e emocional dos jovens. O índice de estudantes que relataram ter sofrido violência sexual, sendo obrigados a relações contra a vontade, mais que dobrou em relação a 2019, chegando a 8,8%. Este salto estatístico acende um alerta sobre a vulnerabilidade dessa faixa etária e a urgência de redes de proteção mais eficazes. Entre vapes e salas vazias, a PeNSE 2024 deixa claro que o sucesso da educação brasileira depende, hoje, menos do currículo e muito mais da garantia de sobrevivência e dignidade para quem ocupa as carteiras.

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