No último ano de seu mandato, o presidente Lula se vê diante de um paradoxo persistente. Os indicadores macroeconômicos, que em tese deveriam garantir tranquilidade ao governo, não estão sendo convertidos em bem-estar social perceptível. O diagnóstico que chegou ao gabinete presidencial é direto: o peso das parcelas mensais e o comprometimento da renda familiar anularam as vitórias do crescimento do PIB e da queda histórica na desocupação. Esse cenário transformou a saúde financeira doméstica em um elemento central de risco para a continuidade do projeto político nas urnas.

O desconforto do Executivo ficou evidente após a recente reunião com Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central. O encontro ocorreu sob o impacto de pressões externas e internas. De um lado, o choque nos preços do petróleo provocado pela instabilidade no Oriente Médio força o governo a pensar em subsídios ou reduções tributárias para conter o impacto nos transportes. De outro, a frustração com o ritmo de queda da Selic gera atritos diretos com a autoridade monetária. Para o governo, manter juros em patamares elevados diante de um cenário de guerra global é um freio desnecessário para uma economia que precisa respirar.
A aposta no programa Desenrola, que surgiu como a grande promessa de saneamento financeiro no início da gestão, mostrou sinais de esgotamento. O programa não conseguiu desatar o nó dos juros do cartão de crédito, que permanecem abusivos independentemente das oscilações da taxa básica da economia. Essa desconexão entre o que o Banco Central decide e o que chega na ponta para o consumidor comum revela uma falha estrutural no sistema de crédito nacional. O aumento do endividamento, ocorrido justamente nos períodos em que a Selic estava mais baixa, reforça a tese de que o problema é mais profundo do que uma simples canetada monetária.
O país parece circular em volta dos mesmos dilemas de quatro anos atrás, tentando solucionar crises de consumo com mais crédito, sem enfrentar a raiz da baixa rentabilidade das famílias. Ao dobrar a aposta em modelos que privilegiam o consumo imediato sobre a solvência de longo prazo, o Brasil estica a corda social. Se a economia real continuar sendo mascarada por faturas impagáveis, os números positivos do governo permanecerão restritos aos relatórios técnicos, sem nunca chegar à mesa do cidadão que decide o voto.





