A engrenagem institucional de Brasília voltou suas atenções para uma transação financeira de R$ 22 milhões que conecta o setor bancário privado ao entorno familiar da cúpula do Legislativo. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) acionou a Corte para investigar as condições de um empréstimo concedido pelo Banco Master à empresária Bianca Medeiros, cunhada do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. O foco da apuração, capitaneada pelo subprocurador-geral Lucas Rocha Furtado, é desvendar se a operação, embora aparentemente privada, contou com o aporte indireto de verbas públicas ou se houve negligência na fiscalização por parte do Banco Central.
O montante foi formalizado em março de 2024 e serviu como lastro para a aquisição de uma área superior a 400 hectares em João Pessoa. O terreno deve abrigar um complexo imobiliário que inclui a implementação de uma unidade industrial de cimento. Para o Ministério Público, a magnitude da cifra e o parentesco da tomadora do crédito com uma das figuras mais proeminentes da República justificam uma auditoria rigorosa. A preocupação central reside na possibilidade de o banco ter oferecido condições diferenciadas ou utilizado linhas de financiamento oficiais sob gestão estatal para viabilizar o negócio.
Para assegurar a integridade de uma futura investigação, o Ministério Público solicitou que o TCU imponha uma blindagem documental ao Banco Master. A medida cautelar visa impedir que reestruturações contratuais ou alterações societárias apaguem o rastro dos recursos antes que os técnicos da Corte consigam analisar a legalidade da transação. Paralelamente, a representação cobra que o Banco Central demonstre se agiu com o rigor necessário na supervisão da gestão de riscos e na prevenção de possíveis conflitos de interesse, dadas as partes envolvidas.
Do outro lado, a defesa de Bianca Medeiros sustenta que o crédito é estritamente comercial e reflete o histórico empresarial de sua família na Paraíba, que atua há décadas em diversos ramos econômicos. Segundo a empresária, o contrato seguiu os ritos habituais de mercado, com garantias fiduciárias sólidas e sem qualquer interferência política. Ela reforça que sua empresa opera de forma independente e não possui vínculos de gestão com o deputado Hugo Motta.
A assessoria do presidente da Câmara também se manifestou, classificando o episódio como uma relação entre entes privados. O gabinete de Motta destaca que o parlamentar não teve participação na costura do acordo e lembra que, na data da assinatura do empréstimo, ele ainda não ocupava a presidência da Casa. Agora, cabe aos ministros do TCU decidir se os indícios apresentados são suficientes para converter a desconfiança em uma tomada de contas especial, o que poderia levar a sanções e pedidos de ressarcimento caso qualquer desvio de finalidade seja comprovado.





