A engrenagem que desviava recursos diretamente dos contracheques de aposentados e pensionistas do INSS ganhou um rosto político de peso. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, validou indícios que colocam a deputada federal Maria Gorete Pereira (MDB-CE) como peça central em um esquema de corrupção e lavagem de dinheiro. A decisão judicial, que fundamenta medidas cautelares contra a parlamentar, detalha como o poder político teria sido convertido em bens de luxo financiados por descontos indevidos na previdência social.
O rastro financeiro traçado pelos investigadores aponta para um padrão de vida incompatível com os rendimentos declarados. No centro das suspeitas está a aquisição de um apartamento de R$ 4 milhões, supostamente operada por meio de uma empresa de fachada, além de um veículo de luxo avaliado em mais de R$ 400 mil. Para o magistrado, o fluxo de capitais não deixa dúvidas: o dinheiro que deveria garantir a dignidade de idosos teria sido desviado para alimentar contas vinculadas à deputada e a seus familiares, utilizando empresas que funcionavam como meros canais de passagem para a propina.
A peça acusatória ganha contorno material com a apreensão de planilhas. Nelas, o nome de Maria Gorete aparece vinculado a cifras vultosas, identificadas como pagamentos ilícitos. A investigação sugere que a parlamentar não apenas se beneficiava do esquema, mas operava ativamente na burocracia estatal. Ela mantinha contato estreito com Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS preso na Operação “Sem Desconto” em novembro de 2025, com o objetivo de facilitar o credenciamento de entidades sob sua influência, garantindo que a máquina de descontos irregulares continuasse operando sem entraves.
Além do enriquecimento ilícito, o STF identificou manobras recentes de ocultação patrimonial. Segundo o ministro Mendonça, a deputada e outros investigados, incluindo a ex-dirigente associativa Cecília Rodrigues Mota, estariam agindo para dilapidar bens, o que impõe um risco real à recuperação dos valores subtraídos dos cofres públicos. Essa tentativa de “limpar” o patrimônio foi um dos fatores que motivou o rigor das medidas adotadas pela Corte.
Em resposta às graves acusações, a deputada Gorete Pereira divulgou nota oficial negando qualquer irregularidade. A parlamentar sustenta que sua trajetória de quatro décadas na vida pública é pautada pela integridade e que as informações do processo não condizem com a realidade. Sob a consultoria jurídica do advogado Waldir Xavier, a defesa informou que aguarda a análise completa dos autos para se manifestar detalhadamente, reiterando sua confiança nas instâncias do devido processo legal.





