O clube do bolinha de smoking: como a burocracia mais cara do mundo vende sonhos de plástico

​Entre tapetes vermelhos e planilhas de Excel, entenda por que o seu filme favorito perdeu para aquele drama histórico que ninguém assistiu, mas todo mundo no set adora

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​Todo ano é o mesmo ritual: o planeta para por algumas horas para observar milionários entregando objetos dourados para outros milionários sob uma chuva de confetes e discursos ensaiados. O que a transmissão oficial vende como o ápice da celebração artística, no entanto, opera com o frescor de uma repartição pública de luxo. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, esse coletivo de quase 10 mil almas que decide o que é “cultura” e o que é “lixo”, funciona sob uma lógica de condomínio onde o que importa não é necessariamente a revolução estética, mas se você deu bom dia para o porteiro e não fez barulho depois das dez.

O processo de escolha é um exercício de ego corporativo levado às últimas consequências. Imagine que, na fase inicial, o sistema se baseia na ideia de que só um marceneiro entende de martelo. Atores escolhem atores, diretores apontam seus colegas de cadeira dobrável e cada técnico julga o vizinho de profissão. É a validação dos pares levada ao extremo, um “curtir” profissional que garante que ninguém de fora interfira no status quo da firma. A exceção fica para a categoria de Melhor Filme, o grande prêmio de consolação onde todos podem palpitar, transformando a seleção em uma espécie de assembleia geral de sindicato.

A ironia ganha contornos mais nítidos quando a estatueta final entra em jogo. Nesse momento, o especialista em lentes vota no melhor figurino e o maquiador decide qual roteiro foi mais profundo. O resultado? Uma média aritmética de gostos pessoais que muitas vezes privilegia o bom relacionamento em vez da ousadia. Se um longa-metragem tecnicamente mediano vence um épico inovador, não procure explicação na teoria do cinema; procure na lista de contatos do produtor. No Oscar, ser “gente boa” nos bastidores e ter uma campanha de marketing que beira o assédio moral aos votantes costuma valer muito mais do que um enquadramento perfeito ou uma atuação visceral.

Essa estrutura foi milimetricamente pensada para manter a fachada de prestígio enquanto protege os interesses financeiros da engrenagem. O troféu funciona como um selo de qualidade que ressuscita bilheterias moribundas e inflaciona o salário de astros da noite para o dia. No fundo, a premiação é o esforço máximo de Hollywood para provar que ainda é relevante em uma era onde a atenção do público está fragmentada em vídeos de quinze segundos. Eles nos vendem mística e nós compramos a burocracia, tudo para garantir que, no ano que vem, a festa continue exatamente igual, com o mesmo brilho sintético de sempre.

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