O novo fôlego dado ao caso retira o foco exclusivo do peculato o desvio direto de dinheiro público, para observar o estilo de vida e o fluxo de capital que orbitava o gabinete. A Assessoria Criminal da PGJ identificou lacunas que o relatório anterior, assinado pelo promotor Alexandre Murilo Graça, preferiu não preencher. Entre as incongruências que sustentam a reabertura, destaca-se a rotina quase cerimonial de Carlos Bolsonaro com um cofre bancário. A frequência mensal de acessos a um depósito privado de valores, comportamento atípico para o cidadão comum, levanta a suspeita de que o dinheiro vivo, e não as transferências digitais rastreáveis, era o motor de sua economia pessoal.
Essa tese ganha força quando se analisa o cotidiano doméstico do político. O dossiê aponta que, durante quase uma década, o plano de saúde do ex-vereador foi quitado de forma externa à sua conta bancária corrente, com apenas um boleto registrado em seu nome. A investigação agora busca identificar quem eram os “mecenas” que garantiam sua cobertura médica. Somado a isso, ressurge a transação imobiliária de 2009 em Copacabana, onde um apartamento foi declarado por R$ 70 mil, cifra que, mesmo corrigida, soa como uma anomalia diante da realidade do mercado imobiliário da Zona Sul carioca.
No centro da engrenagem operacional permanece Jorge Luiz Fernandes, ex-chefe de gabinete e atual assessor da vereadora Alana Passos. A denúncia sustenta que Fernandes teria gerido uma estrutura que drenou R$ 1,9 milhão dos cofres municipais através de funcionários que, na prática, serviam como doadores compulsórios de seus próprios salários. A inclusão de Ana Cristina Siqueira Valle no rol de 26 investigados expande a investigação para o núcleo familiar histórico, revisitando depósitos em espécie que ultrapassam os R$ 340 mil.
Enquanto a defesa de Ana Cristina classifica a manobra como uma “expedição de pesca” jurídica motivada por interesses políticos, a PGJ se escora no rigor processual. O magistrado Thales Nogueira Cavalcanti Venâncio Braga, ao discordar do encerramento precoce do caso, forçou o sistema a confrontar suas próprias omissões. Agora, com a remessa dos autos à 4ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada, o Estado busca entender se a ausência de depósitos diretos na conta de Carlos Bolsonaro era sinal de probidade ou apenas a evidência de um esquema desenhado para nunca deixar rastros no sistema financeiro oficial.





