O Supremo Tribunal Federal operou, nas últimas 48 horas, uma manobra de engenharia institucional para isolar uma crise de imagem sem paralisar as engrenagens da justiça. A saída de Dias Toffoli da relatoria do caso Banco Master e a ascensão, via sorteio, de André Mendonça não representam apenas uma troca de assinaturas nos despachos; trata-se de um rearranjo de forças em um processo que deixou de ser uma apuração sobre fraudes financeiras para se tornar um campo minado político.
A decisão de Toffoli de deixar o caso “a pedido” foi o mecanismo técnico encontrado para evitar o fantasma da suspeição. Se o ministro admitisse impedimento, o castelo de cartas desmoronaria: provas colhidas, perícias realizadas e decisões tomadas seriam anuladas, forçando a Polícia Federal e o Ministério Público a retornar ao marco zero. Ao optar pela saída institucional por “interesse do bom andamento dos trabalhos”, o STF blindou a validade jurídica de atos que, embora válidos, carregam a marca da excepcionalidade.
Durante sua gestão, Toffoli imprimiu uma dinâmica pouco ortodoxa. Ao centralizar a custódia de celulares apreendidos dentro do próprio Supremo e escolher pessoalmente os peritos, tarefas que, no rito padrão, pertencem à Polícia Federal, o ministro criou um ambiente de hermetismo que alimentou questionamentos nos bastidores do Judiciário. A urgência em acessar os dados periciados de Daniel Vorcaro, justamente após seu nome surgir em diálogos analisados, acelerou o desgaste que culminou na reunião reservada de quinta-feira.
Agora, o bastão passa para André Mendonça, que herda um processo com “plenos poderes” para manter ou implodir o que foi feito. Juridicamente, o novo relator tem em mãos o que especialistas descrevem como um novo começo dentro de uma estrutura já montada. Mendonça já deu o primeiro passo nessa transição ao convocar a cúpula da Polícia Federal para uma imersão técnica de duas horas na última sexta-feira. O gesto sinaliza um retorno à formalidade operacional e uma tentativa de alinhar o cronograma da PF com as expectativas do gabinete.
O desafio de Mendonça, contudo, transcende os autos. A investigação sobre o Banco Master transbordou o setor bancário ao identificar diálogos de Vorcaro com parlamentares e presidentes de partidos desde 2022. Com o material probatório preservado pela Corte, o novo relator torna-se o guardião de segredos que podem sacudir o Legislativo. Caberá a ele decidir se mantém o sigilo rigoroso imposto por seu antecessor ou se aplica o princípio da publicidade, expondo a extensão dos tentáculos da instituição financeira nos corredores de Brasília.
A troca de relatoria é, em última análise, um teste de estresse para a colegialidade do STF. Enquanto a validade dos atos de Toffoli é garantida por nota oficial, a condução de Mendonça determinará se o caso Banco Master será lembrado como uma investigação técnica rigorosa ou como mais um capítulo de tensões entre os Poderes. O “jogo zerado”, como definem constitucionalistas, agora depende do estilo de um magistrado conhecido pela discrição, mas que assume o processo no momento de sua maior incandescência.





