O drible de Motta: Câmara assume o protagonismo da jornada de trabalho e esvazia palanque do Planalto

​Ao acelerar PECs na contramão da estratégia do governo, presidente da Câmara impõe rito mais rigoroso, mas garante a paternidade de uma das pautas mais populares do ciclo eleitoral

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A movimentação do presidente da Câmara, Hugo Motta, ao despachar as Propostas de Emenda à Constituição (PECs) sobre a redução da jornada de trabalho para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), gerou um curto-circuito diplomático com o Palácio do Planalto. O gesto, que à primeira vista poderia ser interpretado como um aceno de convergência, foi recebido pelo núcleo duro do governo como uma manobra de isolamento político. O incômodo reside no fato de que o Executivo refinava um projeto de lei próprio, planejado para ser o grande trunfo social da campanha à reeleição do presidente Lula.

A insatisfação governista não é meramente protocolar, mas estratégica. Ao priorizar a via constitucional em detrimento do projeto de lei (PL) articulado pelo Planalto, Motta sequestra o protagonismo da pauta e impõe um rito legislativo mais árduo. Enquanto um PL requer maioria simples de 257 votos para avançar, a PEC exige o quórum qualificado de 308 parlamentares em dois turnos de votação. Na prática, o Legislativo sinaliza que detém o controle do cronograma e da autoria intelectual de uma medida que altera profundamente as relações trabalhistas no país, deixando o governo em uma incômoda posição de coadjuvante.

Fontes próximas à presidência da Câmara indicam que a decisão não foi um acidente de percurso, mas uma demarcação de território. Interlocutores de Motta garantem que a meta é consolidar a aprovação do texto ainda no primeiro semestre deste ano, consolidando uma agenda positiva para o Congresso antes que o calendário eleitoral engesse as discussões. Para o Planalto, a pressa de Motta atropela o planejamento de um anúncio festivo que serviria de combustível para a militância e para a narrativa de recuperação de direitos sociais.

Mesmo diante do fato consumado no Parlamento, o governo mantém a intenção de enviar sua própria proposta por meio de um projeto de lei, tentando recuperar parte do terreno perdido. Contudo, a coexistência de dois caminhos legislativos distintos para o mesmo fim cria um cenário de insegurança jurídica e disputa narrativa. No xadrez brasiliense, o episódio revela um Hugo Motta disposto a exercer a independência do cargo com um pragmatismo que, embora alinhe a Câmara a anseios populares, desafia abertamente a coreografia política desenhada pelo Executivo.

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