Entre o cárcere invisível e a blindagem jurídica: os 20 anos da lei que deu nome ao silêncio das brasileiras

​Duas décadas após sua sanção, a Lei Maria da Penha redesenha o conceito de sobrevivência no Brasil, mas enfrenta o desafio de romper o silêncio institucional e a sofisticação da violência digital.

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A cronologia da violência doméstica no Brasil possui um divisor de águas que não se apaga com o tempo, mas se reafirma no cotidiano de mulheres como Suzana e Patrícia. O relato de quem precisou fugir sob disparos ou viu o próprio diploma ser reduzido a cinzas não é apenas um registro de trauma; é o sintoma de uma estrutura que, até 2006, tratava o espancamento doméstico com a mesma gravidade jurídica de uma briga de trânsito. Ao completar 20 anos, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340) deixa de ser apenas uma conquista legislativa para se tornar um espelho das tensões sociais de um país que ainda registra médias alarmantes de 60 ocorrências diárias apenas no Distrito Federal.

A transição da Lei 9.099, que permitia que agressores “pagassem” por crimes de lesão corporal com cestas básicas, para o rigor da atual legislação foi o primeiro grande golpe na desnaturalização do abuso. Antes, a Justiça operava sob a ótica da conciliação forçada; hoje, o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do CNJ exige que magistrados reconheçam a assimetria de poder inerente a essas relações. Entretanto, a teoria jurídica ainda tropeça na prática de tribunais que, por vezes, negligenciam as camadas invisíveis da violência: o controle patrimonial, o sufocamento psicológico e o monitoramento obsessivo.

O amadurecimento da rede de proteção revelou que a agressão física é, frequentemente, o estágio final de um ciclo que começa na desqualificação profissional e no isolamento social. Patrícia, advogada que viu seu agressor ser protegido pelo silêncio de círculos sociais de elite, personifica a tese de que o status econômico não blinda a vítima, mas pode, paradoxalmente, silenciar a rede de apoio. A modernização da lei trouxe avanços tecnológicos, como o monitoramento eletrônico de agressores, mas a eficácia dessas ferramentas ainda esbarra na geografia da desigualdade. Enquanto centros urbanos discutem a sofisticação da violência em ambientes virtuais, mulheres em regiões administrativas e periferias lutam pelo acesso básico à informação sobre seus direitos.

O cenário atual, embora marcado por números que assustam, reflete uma mudança de comportamento: o aumento das denúncias indica que o medo de morrer está sendo superado pela confiança nos mecanismos de proteção. No entanto, especialistas alertam que a punição isolada é um remédio para o sintoma, não para a causa. A verdadeira erradicação da misoginia estrutural depende de uma ofensiva que ultrapasse as delegacias e alcance as salas de aula e os parlamentos, onde a violência tem se manifestado de formas cada vez mais complexas. O desafio para a próxima década é garantir que a rede de apoio não seja apenas um refúgio para quem sobreviveu, mas um sistema capaz de interceptar o braço do agressor antes que o próximo tiro, ou grito, seja disparado.

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