O cenário da opinião pública brasileira sobre a autonomia reprodutiva atravessa um momento de cristalização conservadora. Dados recentes do PoderData revelam que a resistência à legalização do aborto não apenas persiste, mas alcançou seu patamar mais elevado em cinco anos. O contingente de cidadãos que se posicionam contra a liberação do procedimento saltou de 58%, em 2021, para os atuais 68%, evidenciando um distanciamento crescente entre as pautas de movimentos progressistas e o sentimento médio das ruas.

Essa oscilação para a direita no termômetro social ocorre em um vácuo de estabilidade para os defensores da pauta. Se há quatro anos quase um terço dos brasileiros (31%) via com bons olhos a flexibilização das leis, hoje esse grupo encolheu para 22%, mantendo uma trajetória de declínio que se estabilizou abaixo da zona de um quarto da população. O fenômeno sugere que, apesar da intensa circulação de informações e do debate global sobre direitos civis, o tecido social brasileiro reforça seus valores tradicionais, possivelmente influenciado por recortes religiosos e pela polarização política que pauta o cotidiano nacional.
Metodologicamente, o estudo reflete uma amostra robusta de 2.500 entrevistas distribuídas por todas as unidades da federação, conferindo à margem de erro de dois pontos percentuais um peso estatístico difícil de ignorar. O silêncio dos indecisos, apenas 10%, reforça a tese de que o tema é um dos divisores de águas mais nítidos da identidade nacional contemporânea, onde a neutralidade perde espaço para convicções firmemente estabelecidas.
Atualmente, o ordenamento jurídico brasileiro mantém a prática como crime, resguardando exceções específicas e limitadas: casos de estupro, risco de vida para a gestante e anencefalia fetal. Fora deste tripé legal, qualquer tentativa de ampliação de direitos esbarra agora em uma barreira de opinião pública que parece mais sólida do que nunca. O desafio para o Legislativo e para o Judiciário, diante de tais números, torna-se um exercício complexo de equilibrar preceitos constitucionais e a vontade majoritária de uma sociedade que, ao menos por ora, fechou a porta para novas concessões nesse campo.





