A barreira entre o sonho da universidade e a realidade das periferias brasileiras ganha um novo mecanismo de transposição a partir desta quarta-feira (28). O Ministério da Educação (MEC) deu início ao processo de seleção e renovação da Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), uma estratégia estatal que tenta corrigir distorções históricas no acesso à educação superior. O edital nº 1/2026 projeta um salto qualitativo no programa, destinando R$ 108 milhões para sustentar iniciativas que sobrevivem, muitas vezes, apenas pelo voluntariado e pela resistência comunitária.
Neste ciclo, a CPOP alcança a marca de 514 unidades apoiadas em todo o território nacional. A estrutura do edital revela uma engenharia de continuidade e expansão: enquanto 384 projetos que já integravam a rede garantem sua permanência, condicionados à aprovação de contas e relatórios de atividades, outras 130 vagas são abertas para novos proponentes. O objetivo é oxigenar o sistema e acolher cursinhos informais, projetos de extensão universitária e redes populares legalmente instituídas que operam nas franjas do sistema educacional privado.
O suporte financeiro, que pode chegar a R$ 208 mil por unidade, não se limita ao custeio de infraestrutura. O programa ataca diretamente o gargalo da evasão escolar por meio do auxílio-permanência de R$ 200 mensais, pago diretamente aos estudantes durante oito meses. Para o corpo docente e técnico-pedagógico, a verba assegura uma remuneração que profissionaliza o trabalho antes baseado exclusivamente no engajamento social. Essa injeção de recursos representa um aumento significativo em relação ao primeiro edital, quando o teto por cursinho era de R$ 163,2 mil.
A prioridade na seleção reflete um compromisso com a interseccionalidade social. O foco recai sobre estudantes de escolas públicas, negros, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência, com recorte de renda per capita de até um salário-mínimo (R$ 1.621). Trata-se de uma política de Estado voltada para quem, historicamente, é empurrado para fora dos portões acadêmicos. Ao fortalecer esses núcleos preparatórios para o Enem, o MEC tenta equilibrar a balança de oportunidades, transformando o cursinho popular de um esforço isolado em um elo robusto da política pública nacional.
As instituições interessadas têm até o dia 27 de fevereiro para submeter suas propostas via sistema da Rede Nacional, utilizando as credenciais da plataforma Gov.br. Além de viabilizar a entrada no ensino superior, o ministro Camilo Santana reforça que a iniciativa é uma ferramenta de cidadania, garantindo que o potencial intelectual da juventude periférica não seja desperdiçado por falta de suporte básico e orientação acadêmica.





