A geografia do sertão paraibano ganha contornos de sala de cinema entre os dias 22 e 24 de janeiro. São Francisco, município que respira a mística das águas e das terras do Alto Sertão, sedia a segunda edição do Aracati Fest Cine. Muito além de uma janela de exibição, o evento se consolida como um catalisador de identidade, ocupando espaços públicos para conectar a produção audiovisual contemporânea ao cotidiano de uma população que vê sua própria história refletida na tela.
A curadoria deste ano estrutura o festival em quatro eixos temáticos que homenageiam figuras seminais da cultura regional. Nomes como Vladimir Carvalho e Ely Marques batizam mostras que dialogam com a vanguarda e a resistência estética, enquanto as mostras Xobocon e Lunga mergulham nas raízes locais, celebrando desde a ancestralidade indígena até o legado das louceiras tradicionais. O ponto alto da narrativa local reside na exibição do documentário “Filhos de Chicô”, obra que resgata a gênese de São Francisco por meio da oralidade de seus veteranos, transformando o arquivo afetivo em patrimônio público.
A produção, assinada pela Ensilveirado Cine sob o comando de Sérgio Silveira e Robenildo Oliveira, utiliza o fomento da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) para democratizar o acesso à sétima arte. No Auditório Hermes Casimiro e na Praça de Eventos Cendec, o cinema se torna um ato coletivo. A programação diurna investe no capital intelectual com a Oficina de Criação de Roteiro voltada para mulheres, ministrada por Pattrícia de Aquino, e debates que discutem a projeção do Nordeste como um território fértil para o cinema global, contando com a participação de realizadores como Bertrand Lira e Andryelle Araújo.
O festival também reverencia o legado de Laércio Ferreira Filho, figura central na articulação do audiovisual sertanejo, cuja homenagem simboliza o reconhecimento de quem pavimentou caminhos para o cinema no interior do estado. A experiência sensorial do evento é ampliada por intervenções musicais que vão de Tyago Lima ao encerramento com a energia de Mamá de Uiraúna, reforçando que, no Aracati Fest Cine, a cultura é tratada como um ecossistema integrado. Ao unir pipoca, debate técnico e cinema de alta voltagem sob o céu do sertão, São Francisco reafirma que o interior não é apenas cenário, mas protagonista da cinematografia brasileira.





