A Air France parece ter inaugurado uma nova e peculiar modalidade de programa de fidelidade: o “Upgrade Fantasma”. O roteiro, digno de uma comédia de erros com tons de drama autoritário, teve como palco o Aeroporto Charles de Gaulle. Ivan Lopes e sua família, que retornavam de Milão, acreditaram na promessa digital de que 1.596 euros seriam o passaporte para o conforto da classe executiva no voo AF562. Mal sabiam que o verdadeiro destino seria o asfalto frio de Paris, sob a escolta de policiais armados.
O impasse começou com uma matemática que não fecha. Ao chegar no portão, a família foi informada de que o assento 7L havia “desaparecido” do inventário comercial. Contudo, ao cruzarem a porta da aeronave, a física se provou implacável: o assento existia, estava lá, mas ocupado pela autoridade máxima da conveniência corporativa, um funcionário da própria companhia. No tabuleiro de xadrez da aviação moderna, o passageiro pagante é um peão, enquanto o “staff” é o rei.
A reação da tripulação, segundo os relatos, abandonou o refinamento francês para adotar o tom de um quartel. O comandante, em vez de mediar o conflito com a diplomacia esperada de quem ostenta quatro divisas no ombro, teria optado pelo grito como ferramenta de gestão de crise. O resultado foi uma cena dantesca: uma família de turistas retirada da aeronave por forças de segurança, como se a contestação de um assento pago fosse um ato de pirataria aérea.
A Air France, em nota que beira o cinismo literário, classificou os passageiros como “indisciplinados”, alegando riscos à segurança. É uma manobra retórica fascinante: transformar o consumidor enganado em uma ameaça terrorista para justificar o injustificável. Enquanto isso, as bagagens da família descansavam em solo francês por horas, talvez refletindo sobre a hospitalidade europeia.
O prejuízo de 16 mil euros para a compra de novas passagens é apenas o valor monetário de uma experiência que a propaganda da companhia jamais mostraria. O episódio deixa uma lição clara para os viajantes: em solo francês, o “Liberté, Égalité, Fraternité” para no check-in. Se você ousar questionar por que o seu lugar foi cedido ao “colega de firma” do piloto, prepare-se para ser o vilão da história, e, de quebra, aprenda que a classe executiva mais cara do mundo é aquela que você paga, mas não senta.





