A ordem geopolítica do Hemisfério Ocidental sofreu uma fratura definitiva com o anúncio de que a Casa Branca assumirá, de forma unilateral e direta, a administração do Estado venezuelano. Ao transpor a lógica da reconstrução do pós-guerra para o solo sul-americano, o governo dos Estados Unidos instaura um modelo de intervenção que não se via desde as ocupações do Japão e da Alemanha em 1945, ou a queda do regime de Saddam Hussein em 2003. A medida substitui a retórica do apoio externo por uma engenharia de controle estatal operada por um gabinete de interventores do alto escalão de Washington.
A estratégia apresenta um componente de pragmatismo severo ao excluir María Corina Machado, até então a principal fiadora da oposição interna, do desenho institucional da transição. Ao vetar o protagonismo da líder venezuelana, o Salão Oval sinaliza que a prioridade não é a sucessão por figuras estabelecidas, mas sim uma “limpeza” burocrática e administrativa conduzida estritamente por critérios americanos. Essa decisão estabelece uma “tabula rasa” política, conceito filosófico que descreve a mente humana ao nascer como uma “folha em branco”, sem ideias ou conhecimentos inatos, sendo moldada inteiramente pelas experiências e pelo aprendizado, onde a soberania é temporariamente suspensa em favor de uma gestão técnica internacionalizada.
No campo da segurança, a postura adotada é de dissuasão total. O presidente americano não apenas autorizou a permanência de tropas em território venezuelano por tempo indeterminado, como deixou a porta aberta para novas incursões militares caso o cenário exija. Essa presença permanente de forças armadas estrangeiras atua como a espinha dorsal de um protetorado de fato, transformando a crise venezuelana de um dilema diplomático regional em uma zona de administração de segurança nacional dos EUA.
O impacto desse movimento reverbera além das fronteiras venezuelanas, desafiando o conceito de autodeterminação dos povos e confrontando diretamente a influência de potências rivais na região. Sem detalhar nomes ou prazos para a devolução do poder, Washington assume um compromisso de longo prazo que redefine o papel americano na América Latina: o de um administrador direto que, diante do colapso de instituições locais, opta por gerir o caos através de sua própria estrutura de Estado.





